quarta-feira, 21 de março de 2012

UNIÃO POR PERNAMBUCO: Entre o desenvolvimentismo econômico e o pragmatismo eleitoral

Monografia apresentada como requisito parcial à conclusão da Especialização em História e Jornalismo, pela Universidade Católica de Pernambuco.
Área do conhecimento: Ciências Humanas – História
Orientador: Prof. Dr. Newton Darwin de Andrade Cabral
RECIFE, novembro de 2011



RESUMO


Neste trabalho foi analisada a trajetória histórica da aliança político-eleitoral firmada entre o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e o Partido da Frente Liberal (PFL), em Pernambuco, no início da década de 1990. Foram discutidas sua real finalidade, as vitórias conquistadas por seus representantes, bem como as derrotas por eles sofridas nas urnas. Na pesquisa, procedeu-se, ainda, a um estudo teórico sobre alianças políticas, assim como foram examinados exemplos práticos de alianças historicamente bem-sucedidas no Brasil. No caso do acordo entre o PMDB e o PFL, foi demonstrado que não se tratava de uma frente de cunho desenvolvimentista, conforme apregoavam seus idealizadores, mas de um pacto eleitoral entre antigos rivais – tendo como principal expoente o então prefeito do Recife, Jarbas Vasconcelos – com o objetivo de assegurar-lhes a conquista do poder máximo estadual e garantir-lhes uma permanência por um período de, no mínimo, vinte anos no comando dos destinos do Estado de Pernambuco.

Palavras-chave: poder; acordos políticos; eleições em Pernambuco; Jarbas Vasconcelos.




INTRODUÇÃO


Durante o período do regime militar pós-golpe de 1964, a liberdade partidária no Brasil esteve sob severas restrições. Em 1966, imaginando uma estratégia para manter as oposições sob controle, o governo estabeleceu o bipartidarismo, juntando em uma mesma legenda todos os segmentos adversários do regime, enquanto reunia, em outra, os seus apoiadores. Assim, foram criados, respectivamente, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (Arena), adversários naturais por origem.
Com o processo de distensão política, o pluripartidarismo foi restabelecido em 1980. A Arena transformou-se no Partido Democrático Social (PDS) e o MDB apenas acrescentou à sua nomenclatura original a palavra “partido” e a sigla “P”. Embora surgissem novas legendas, a polarização entre estas duas se manteve até 1985, quando dissidentes do PDS, reunidos em um grupo batizado de Frente Liberal, se uniram aos peemedebistas no apoio à candidatura presidencial de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Esses dissidentes fundariam, logo depois, o Partido da Frente Liberal (PFL), que após a redemocratização, retomaria a rivalidade com o PMDB.
Em 1993, porém, começaria a ser articulada uma reaproximação entre lideranças dos dois partidos, em Pernambuco. Este estudo teve como objetivo analisar as causas e efeitos concretos dessa aliança localizada, entre PMDB e PFL, bem como o cenário em que ela estava inserida. Seus artífices a justificavam como uma iniciativa, comum aos dois partidos, que visava a retomada do desenvolvimento do Estado. Mas o comportamento do bloco indicava um objetivo distinto e não revelado: somar forças para confrontar o grupo liderado pelo socialista Miguel Arraes e assegurar o poder político em Pernambuco.
Dividimos este trabalho em quatro capítulos. No primeiro, intitulado “Menos partidos, mais alianças”, optamos por realizar um estudo sobre a dicotomia direita-esquerda, partindo das definições teóricas desenvolvidas pelo filósofo e cientista político italiano Norberto Bobbio, e daí enveredamos por uma análise teórica das alianças políticas, culminando com o detalhamento de dois cases brasileiros: a criação da Frente do Recife – que, na metade do século XX, se tornaria a semente da Frente Popular de Pernambuco; e a própria Aliança Democrática, firmada entre PMDB e Frente Liberal em torno da candidatura de Tancredo Neves.
Por se tratar de um tema recente, ao entrarmos no segundo capítulo, cujo título é “Acenos entre velhos adversários”, sentimos certa dificuldade na pesquisa bibliográfica. Por outro lado, encontramos, nos arquivos do Jornal do Commercio, do Recife, farto material jornalístico sobre o assunto, produzido por vários repórteres daquele periódico, inclusive pelo autor deste trabalho. A partir desse material, nos debruçamos sobre a aliança PMDB-PFL em Pernambuco, analisando suas origens, os motivos que geraram a rivalidade entre o peemedebista Jarbas Vasconcelos – principal ideólogo do bloco – e o socialista Miguel Arraes, as resistências nas bases dos dois partidos à aproximação e, por fim, a primeira eleição disputada pela aliança, ainda em caráter informal, contra Miguel Arraes.
A partir do terceiro capítulo, chamado “Um projeto de vinte anos de poder”, o estudo se volta para as primeiras disputas eleitorais travadas em Pernambuco, tanto em nível estadual quanto municipal, entre os dois blocos políticos: de um lado a aliança “jarbistas”, como passou a ser chamada, e, do outro, o grupo “arraesista”. Após duas investidas bem-sucedidas – em 1996, no pleito do Recife e, em 1998, na disputa pelo governo do Estado – a aliança PMDB-PFL seria definitivamente assimilada pelo eleitorado, fortalecendo suas bases e passando a mirar a ambiciosa meta de controlar o poder, no Estado, por um período não inferior a duas décadas.
No quarto capítulo, intitulado “Barco da Aliança começa a fazer água”, procuramos demonstrar que o argumento desenvolvimentista – objeto do discurso que justificava o acordo entre PMDB e PFL – foi relegado a um segundo plano, diante dos embates eleitorais. Coincidentemente, por volta do ano 2000 a aliança começou a dar sinais de fadiga, passando a sofrer significativas derrotas na capital, com exceção, em um último fôlego, da reeleição do próprio Jarbas Vasconcelos, em 2002, para o governo do Estado.
Nas considerações finais, buscamos consolidar a nossa opinião de que a formação da aliança PMDB-PFL teve muito mais uma finalidade eleitoral que a de suporte do desenvolvimento de Pernambuco, conforme defendiam, então, seus articuladores. Não obstante o fato de nos dois governos de Jarbas Vasconcelos ter havido, sempre, uma preocupação com o crescimento econômico do Estado.
Analisamos, ainda, os erros de estratégia cometidos pelos aliados, principalmente no campo do marketing eleitoral, que insistiu em adotar um molde único – talhado sobre a figura de Jarbas – para todos os candidatos majoritários nas eleições disputadas pelo bloco partidário. Um equívoco que levou alguns deles ao fracasso nas urnas, provocando, ao final, a derrocada da aliança.
Por último, ressaltamos que o estudo da aliança PMDB-PFL não se encerra com este trabalho. Além de existir a possibilidade, bem plausível, de que os dois partidos em tela voltem a se reunir em futuros embates eleitorais – o que, por si só, já ensejaria uma ampliação desta análise – há outros campos de estudos em que este tema poderia ser detalhado com maior profundidade, como o do marketing eleitoral e o da ciência política.




1 MENOS PARTIDOS, MAIS ALIANÇAS


A política brasileira sempre priorizou, tanto nos períodos de disputa eleitoral como na gestão de governos, a formação de alianças e coligações partidárias. Os partidos políticos no país – salvo raríssimas exceções – jamais se constituíram como instituições fortes o suficiente para caminhar sozinhas. Sempre optaram ou dependeram de acordos firmados com seus pares para assegurar uma perspectiva de vitória aos seus candidatos e, a partir daí, garantir a governabilidade para os eleitos.
Na definição de Max Weber, partidos políticos são “associações que visam a um fim deliberado. Seja ele objetivo, como a realização de um plano com intuitos materiais ou ideais, seja pessoal, isto é, destinado a obter benefícios, poder e, consequentemente, glória para os chefes e sequazes, ou então voltado para todos esses objetivos conjuntamente”. (apud Bobbio, 2001, p. 898). Tal definição atribui, em seu bojo, um caráter associativista natural ao partido, embora reconheça sua finalidade essencial de chegar ao poder na comunidade.
Se aplicada particularmente ao cenário político brasileiro, formado a partir da segunda metade do Século XX, a definição concebida por Max Weber se adapta perfeitamente às frentes e coligações partidárias citadas no início deste capítulo. É bom ressaltar que até a própria legislação eleitoral brasileira – quiçá influenciada por essa tradição associativista das siglas – prevê em seu texto que, durante as campanhas eleitorais, uma coligação entre dois ou mais partidos, devidamente registrada na Justiça Eleitoral, passará a funcionar e a ser tratada legalmente como um único partido até a promulgação dos resultados finais do pleito.

1.1 Dois espectros de partidos políticos

A responsabilidade pela falta de força política e eleitoral individual dos partidos no Brasil não é de ninguém mais, senão daqueles que os constituem: os políticos. Novamente ressalvando as eventuais exceções, ao longo do período republicano é possível observar o predomínio de dois tipos básicos de agremiações. Há as que primam pela ideologia, categoria na qual podem ser incluídos – ainda que de forma cautelosa – os partidos comunistas (PCB e PCdoB) e as siglas da chamada ultra-esquerda, a exemplo do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU) e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Estes últimos, inclusive, têm por regra rejeitar políticas de alianças, preferindo seguir isolados para as disputas eleitorais, focando sua participação não diretamente na conquista de cargos, mas na oportunidade de difundir seus programas e propostas.
No segundo espectro estão incluídos os demais partidos brasileiros, cuja finalidade primordial é alcançar o poder. Sejam eles mais antigos, mais numerosos em termos de filiados ou programaticamente mais sólidos, sejam apenas pequenos partidos cartoriais, geralmente comandados por um único cacique político cujas preferências por alianças são reguladas de acordo com as benesses que podem ser obtidas. São os chamados “partidos de aluguel”, presentes no cenário graças a uma brecha antiga e permissiva na legislação. Estes, mais que todos os outros, vivem exclusivamente da expectativa de obter vantagens pessoais das coligações às quais se vinculam.

1.2 O golpe militar e a pausa na política de alianças

A tradição aliancista brasileira vem do período imediatamente posterior à ditadura do Estado Novo, e só chegou a ser quebrada de forma significativa uma única vez. Mesmo assim, pela força do golpe militar que, logo após ser instaurado – em 31 de março de 1964 – liquidou todos os partidos políticos existentes, criando duas novas agremiações: a Aliança Renovadora Nacional (Arena) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Na realidade, dois grandes guarda-chuvas idealizados para abrigar governistas e opositores do regime, sob rigorosa vigilância, mas com tratamentos bastante diferenciados.
Na Arena, que contava com a simpatia e os favores do governo militar, havia lugar de sobra para quem desejasse apoiar o novo regime. No MDB, ao contrário, se acotovelavam em um espaço ínfimo, comunistas defensores da luta armada – como PCBR, PCR e PC do B ¬– militantes da esquerda católica, sindicalistas, moderados de linha centrista e até alguns de centro-direita que, por discordarem da fórmula usada para tomar o poder, caíram em desgraça e foram proibidos de frequentar a “alta roda” governista da Arena.
Evidentemente não havia, naquele momento, qualquer perspectiva de acordo político entre os dois partidos rivais. As alianças, na verdade, já estavam compulsoriamente formadas. Sobretudo no caso do MDB, que precisaria aprender a conviver pacificamente naquele verdadeiro “saco de gatos”. Mas, para surpresa do regime, isso terminou acontecendo. A perspectiva de fazer oposição à política de força bruta dos militares arrefeceu os ânimos. Os que não conseguiram suportar o estado permanente de negociação, necessário à existência da oposição, abandonaram a linha institucional e caíram na clandestinidade, pegando em armas para tentar derrubar o governo “na marra”.

1.3 Direita x esquerda: dicotomia se desfaz antes da queda do muro

Um fato merecedor de análise durante o curto período do bipartidarismo brasileiro – que vai de 1966 a 1980 – é a quebra dos conceitos formais da dicotomia direita x esquerda, tratados de forma brilhante pelo pensador italiano Norberto Bobbio. Não era possível aos emedebistas se posicionarem, enquanto partido, como esquerda, dada à verdadeira fauna política agregada na mesma legenda, que impedia qualquer rasgo de ideologia “classificável”. Do lado dos arenistas, embora fosse mais fácil identificar o viés ideológico – principalmente pela adoção compulsória, por parte dos seus filiados, do discurso anticomunista que sustentou as articulações do golpe militar – ninguém se reconhecia como de “direita”.
Eis a definição de Bobbio:
Direita e esquerda são termos antitéticos que há mais de dois séculos têm sido habitualmente empregados para designar o contraste entre as ideologias e entre os movimentos em que se divide o universo, eminentemente conflitual, do pensamento e das ações políticas. Enquanto termos antitéticos, eles são, com respeito ao universo ao qual se referem, reciprocamente excludentes e conjuntamente exaustivos (1994, p. 35)
O ilustre cientista político europeu nos lembra, em sua obra, que essa contraposição entre direita e esquerda representa um modo de pensar por meio de díades, algo existente em todos os demais campos das ciências. Sejam elas antitéticas – entre opositores com visões absolutamente distintas de um universo – ou complementares, onde os opostos conseguem chegar a interpretações harmoniosas de um mesmo universo.
O conceito dicotômico de direita x esquerda, em princípio e tese, está classificado na primeira opção. Embora no período imediatamente posterior à queda do Muro de Berlim e à distensão política nos países do Leste Europeu, essa dicotomia tenha colocado, digamos, um pé na complementaridade, dando o mote para inúmeras alianças políticas entre antigos rivais, que passariam a ser firmadas pelo mundo afora.
O filósofo francês Jean-Paul Sartre, adepto da linha existencialista e ácido crítico da política tradicional europeia, costumava definir direita e esquerda como “duas caixas vazias”. Para ele, os conceitos que por mais de dois séculos serviram para dividir o universo político em dois pólos distintos tiveram seus significados esvaziados a partir da metade do século XX, portanto não havia mais sentido lançar mão dessa dicotomia.
Para Bobbio, no entanto, houve uma crise das ideologias, mas estas não deixaram de existir. Apenas teriam sido substituídas por outras mais modernas. “A árvore das ideologias está sempre verde. Além do mais, como já foi diversas vezes demonstrado, não há nada mais ideológico do que a afirmação de que as ideologias estão em crise”. (1994, p. 36)

1.3.1 A redemocratização e os novos partidos

A partir de janeiro de 1980 começavam a ser rompidas – ainda que de dentro para fora do próprio regime – as amarras impostas pela ditadura aos partidos políticos. O bipartidarismo deu lugar a uma seminal liberdade que, sob a vigilância dos militares, permitiu a fundação de novas siglas. A maior parte originária de subdivisões do MDB.
A Arena, nesse aspecto, logo se resolveria, transformando-se – de maneira bastante uniforme e com pouquíssimas baixas – no Partido Democrático Social, o PDS governista, herdeiro do capital político da antiga sigla. Para lá migraram praticamente todos os apoiadores do governo.
A nova legislação impunha, porém, que as novas legendas começassem com a letra “P”. Foi uma forma encontrada pelos militares para fazer desaparecer do cenário eleitoral o MDB, principal partido de oposição até então. Seus líderes, porém, optaram pela solução mais simples: acrescentar apenas uma palavra à sigla já existente, que passou a se chamar Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Mas, ao contrário da Arena, a nova legenda de oposição não restou inteira com a chegada do pluripartidarismo. Das suas hostes saíram várias lideranças políticas para fundar outras siglas, também de oposição. Foi finalmente fundado o Partido dos Trabalhadores (PT) – gestado ainda sob o manto do MDB, de forma separada, reunindo líderes sindicais, intelectuais de esquerda e representantes da igreja progressista.
Também foi recriado o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – idealizado em 1930 por Getúlio Vargas, cujo registro havia sido cassado em 1964. Mas, uma briga pelo comando da legenda, travada entre a deputada federal Ivete Vargas, sobrinha-neta de Getúlio, e Leonel Brizola, ex-governador gaúcho recém-anistiado, levaria a uma dissidência. Na convenção nacional do PTB, o grupo de Ivete recebeu o apoio informal do ministro da Casa Civil do governo Figueiredo, Golbery do Couto e Silva – eminência parda do regime militar – contra os brizolistas. Com a manobra, Golbery garantiu o racha, e consequente enfraquecimento, da agremiação mais popular do período que antecedeu o golpe militar.
Derrotado na convenção, Brizola saiu imediatamente para fundar o Partido Democrático Trabalhista (PDT), que rezaria pela mesma cartilha varguista, mas se colocando no cenário supostamente com uma visão mais moderna que, inclusive, contrastava com o caudilhismo do ex-governador gaúcho, acostumado a conduzir seu grupo com mão de fero. Prova disso é que, um ano depois da fundação do PDT, Brizola transferiu seu domicílio eleitoral para o Rio de Janeiro, onde disputou e venceu as eleições para o governo do Estado, em 1982.
Com a aprovação do pluripartidarismo, outra legenda seria criada, inicialmente para abrigar os Moderados que atuavam no MDB sob a liderança de Tancredo Neves. Com os ventos da abertura, o grupo rival, dos Autênticos, ganhou força dentro do partido e se preparava para liderar a população nas ruas, clamando pelo restabelecimento das eleições diretas em todas as esferas de poder. Adeptos de uma transição negociada com os militares – e contrários, portanto, à ruptura proposta pelos Autênticos – os Moderados fundaram o Partido Popular (PP).
A dissidência foi novamente estimulada por Golbery do Couto e Silva, que via no PP a melhor opção civil para a sucessão de Figueiredo. Entre os nomes preferidos pelo regime militar estava o do então ministro da Justiça, Petrônio Portela. O PP é assim definido no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, da Fundação Getúlio Vargas:
Por contar em seus quadros com Magalhães Pinto, Olavo Setúbal e Herbert Levy, o PP foi chamado de ‘partido dos banqueiros’. Foi chamado também de 'Partido do Petrônio', por supostamente seguir os termos de um acordo tácito firmado entre Tancredo Neves, o deputado federal Thales Ramalho e o ministro Petrônio Portela, grande incentivador da criação de um partido de centro, e como tal visto não como um partido de oposição, mas como uma agremiação auxiliar do PDS. (2001, p. 80)
De fato, a estratégia conjunta entre os Moderados do MDB e o regime militar seria exposta e começaria a naufragar ainda no início de 1980, após a morte de Petrônio Portela. No ano seguinte, logo após a primeira convenção que elegeu Tancredo Neves presidente nacional do partido, em junho, o Congresso Nacional recebeu do governo um novo pacote de medidas eleitorais que visavam deter o avanço das oposições. Entre elas, ficava estabelecido o voto vinculado – o eleitor só poderia sufragar candidatos de uma mesma legenda para todos os cargos, do contrário, seu voto era considerado nulo.
Diante da perspectiva de não poder formar coligações com outras siglas para a disputa de 1982, os dirigentes do PP sentiram que estavam com os dias contados, rumando para uma derrota importante nas urnas. Em nova convenção, realizada em dezembro do mesmo ano, o PP decidiu, então, se reintegrar ao PMDB, embora após essa divisão nunca mais o partido viesse a obter a unidade interna.


1.4 Alianças convergem para o centro

O recuo do PP de Tancredo Neves foi apenas mais um, entre vários episódios que comprovam a tendência das alianças eleitorais firmadas no Brasil para o centro, enquanto posição política. Em mais de uma ocasião, a direita se viu obrigada a lançar mão de um golpe para conquistar, sozinha, o poder. A esquerda, por sua vez, jamais experimentou o gosto de governar o país de forma isolada, sem o respaldo de uma aliança que convergisse para o centro.
A política brasileira, no entanto, não é a única a sentir a necessidade dessa convergência para o centro. Desde a primeira metade do Século XX – e mais fortemente na segunda metade – nas grandes sociedades democráticas tornou-se cada vez menos bem-sucedida a separação demasiado nítida entre direita e esquerda. Para garantir o título de “sociedade democrática”, é preciso existir tolerância quanto à pluralidade de opiniões. Em seu livro “Direita e esquerda”, Norberto Bobbio explica que tais grupos de opinião e de interesse ora se contrapõem, ora se superpõem, e, em certos casos, se integram, para depois se separarem.
Nessas sociedades democráticas modernas, diz o cientista político italiano, não é mais possível colocar as questões sob a forma de uma simples antítese, de maneira absolutamente dicotômica:
A distinção entre direita e esquerda não exclui de modo algum, sequer na linguagem comum, a configuração de uma linha contínua sobre a qual entre a esquerda inicial e a direita final, ou, o que é o mesmo, entre a direita inicial e a esquerda final, se colocam posições intermediárias que ocupam o espaço central entre os dois extremos, normalmente designado, e bastante conhecido, com o nome de centro. (BOBBIO, 1994, p. 35)

1.4.1 As chances da Terceira Via

Há, sobretudo no Brasil, certo receio por parte dos políticos de se definirem como “de direita”. Em contrapartida, há algum exagero, por parte deles, ao se afirmarem como “de esquerda”. O próprio senador Jarbas Vasconcelos, líder maior da aliança que é tema central deste trabalho, ao justificá-la nos seus primórdios, costumava lançar mão de uma metáfora regional: “Na política de hoje não tem mais isso de a gente ser carne ou peixe”, referindo-se à diferença gastronômica como distinção do pensamento político-ideológico.
A definição rudimentar proposta por Jarbas encontra respaldo na tese do centrismo analisada por Norberto Bobbio em sua obra. Há muito, a díade direita-esquerda, concebida no período pós-revolução francesa, é questionada. Mas não se trata de excluir a dicotomia, e sim de agregar a ela novos elementos, começando com uma tríade – direita-centro-esquerda – e, como defende Bobbio, chegando a uma pentíade, onde há a direita, a centro-direita, o centro por excelência, a centro-esquerda e a esquerda.
O estudioso nos propõe, ainda, uma questão curiosa, e que, observando detalhadamente o processo eleitoral, se encaixa perfeitamente na moderna definição dos candidatos. Novamente concentremo-nos numa sociedade democrática, onde o espaço entre direita e esquerda precisa ser preenchido. Baseando-se em Lupasco , Bobbio classifica este elemento intermediário de Terceiro Incluído. “Como entre a cor branca e preta pode existir o cinza, ou entre o dia e a noite há o crepúsculo”, compara. (1994, p. 36)
Dependendo da sociedade em questão e do seu nível de pluralismo político, o Terceiro Incluído pode se tornar tão exorbitante que passará a ocupar a parte mais ampla do sistema político, relegando direita e esquerda às margens, embora não elimine a dicotomia originária, sem a qual ele próprio perderia a razão de existir.
Mas nesse momento, outro elemento, este desenvolvido pelo próprio Bobbio, é inserido no cenário: o Terceiro Inclusivo. Embora com origens semelhantes à do Terceiro Incluído, este segundo não se coloca como alternativa entre direita e esquerda. Ele simplesmente as anula, atraindo ambas para si. Ou seja: enquanto o Terceiro Incluído poderia ser resumido na fórmula “nem direita nem esquerda”, o Terceiro Inclusivo adotaria a definição “direita e esquerda”.
E é sobre esse segundo elemento que se construirá a maioria das alianças eleitorais no Brasil. Afinal de contas, como foi visto há pouco, para muitos políticos a modernização representa a nulidade da antiga dicotomia direita-esquerda em favor de um discurso no qual ele, o político, não possa ser classificado e, assim, se sinta livre para dispensar as ideologias – quaisquer que sejam – em favor da montagem de uma aliança entre partidos visando não a questão ideológica, mas a conquista do poder em primeiro plano.

1.5 A Frente do Recife e seus acordos elásticos

Para explorar melhor esse conceito do Terceiro Inclusivo e sua aplicação no Brasil, sugerimos um breve recuo à primeira metade do Século XX, para analisar as origens e a formação da Frente do Recife. Naquele período em especial, a política de Pernambuco não seguia o diagrama de forças aplicado à maioria dos Estados brasileiros, que colocava sempre de um mesmo lado os partidos originários do Estado Novo (PSD e PTB), e de outro a UDN e legendas menores, a exemplo do PR e PL.
A Frente do Recife surgiu da necessidade de unir as chamadas “forças de esquerda” com atuação na capital, que embora tivessem alguma penetração nas classes mais populares, careciam de força eleitoral no interior do Estado. O bloco era formado, inicialmente, por comunistas, socialistas, representantes da esquerda independente e, posteriormente, por católicos da esquerda operária.
“A persistência da maioria do eleitorado da região metropolitana do Recife em sufragar os candidatos apresentados pela esquerda indicava o fracasso do Estado e de suas frações dominantes em aproximar-se das classes populares”, escreve o sociólogo José Arlindo Soares (1982, p. 39), no livro “A Frente do Recife e o governo de Arraes: nacionalismo em crise: 1955/1964”.
De fato, graças à força local das esquerdas, o desconhecido Iêdo Fiúza – obscuro candidato à Presidência da República em 1945, lançado na disputa apenas 15 dias antes do pleito – terminou vitorioso no Recife, com 40,2% dos votos, derrotando os favoritos Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes.
Em outras duas ocasiões, o bloco de esquerda revelaria sua força na capital. Em 1947, proporcionou a Pelópidas Silveira – então candidato a governador pelo PSB – 56,7% dos votos no Recife. Ainda assim, computada a votação geral no Estado, a eleição foi ganha por Barbosa Lima Sobrinho. Em 1952, com o falecimento do governador Agamenon Magalhães, o grupo lançou a “anticandidatura” de Osório Borba, também do PSB, contra o favorito Etelvino Lins, que venceu a disputa, mas não sem amargar uma derrota na capital por larga margem de votos.
Essas disputas foram os primeiros passos rumo à vitória no Recife. E ela viria em 1955, quando as esquerdas, unidas, proporcionaram a Pelópidas Silveira 66,87% dos votos para prefeito.
Faltava, porém, força no interior para garantir ao bloco uma vitória de maior espectro. Uma aproximação vinha sendo gestada nas bases sindicais do PCB e do PTB a partir do início dos anos 50. E criou condições favoráveis a uma aliança entre o nacionalismo dos trabalhistas e o desenvolvimentismo dos comunistas e socialistas. Estava formado o núcleo da Frente do Recife, agora com consistência eleitoral suficiente para garantir a eleição de Pelópidas Silveira, que recebeu 66,87% dos votos para prefeito da capital.
Depois do acordo bem-sucedido com o PTB, a Frente do Recife passaria a digerir melhor a necessidade de buscar alianças fora do eixo das esquerdas. Em 1958, aceitou dialogar com a conservadora UDN, que congregava os usineiros e tinha braços largos por todo o Estado, mas carecia de uma figura de força política expressiva na capital, que era Pelópidas. O resultado dessa aliança foi a vitória do usineiro udenista Cid Sampaio para governador, tendo o socialista Pelópidas Silveira como vice.
A coligação entre a Frente do Recife e os produtores de açúcar do Estado funcionou bem para eleger Cid Sampaio, mas durante seu governo ficou claro que se tratava de um mero acordo de conveniências. Em nível nacional, a UDN era a principal adversária das esquerdas e, em Pernambuco, o cenário só se inverteu por necessidade.
Prova disso é que, quatro anos depois, na disputa de 1962, a Frente das Esquerdas já havia rompido com a UDN, para garantir chances de vitória ao seu candidato a governador, Miguel Arraes, então prefeito do Recife sucedendo a Pelópidas. A Frente foi buscar nova aliança ao centro. Dessa vez com o PSD, a quem impusera a derrota de 58. Tão conservadores quanto os udenistas, os pessedistas representavam os coronéis da oligarquia pecuarista do Estado. Já não era mais um problema para as esquerdas. Tratava-se, ali, de mais uma aliança por conveniência eleitoral.
Para deixar essa característica bem clara, é bom lembrar que o PSD não se dispôs apenas a apoiar Arraes – considerado um adversário até então – mas, principalmente, concordou em dividir espaço no palanque com dois segmentos que combatia duramente: os trabalhadores rurais das Ligas Camponesas e os comunistas. Sem falar nos intelectuais de esquerda defensores das reformas de base propostas pelo presidente João Goulart.
O discurso do adversário udenista, João Cleófas, primava exatamente pela crítica a essa questão. Ele chegaria ao ponto de afirmar, em discurso, que os comunistas teriam um “plano sangrento”, dispostos a sacrificar vidas e por a culpa nas autoridades estaduais, apenas para garantir a vitória de Arraes. Não adiantou a retórica udenista. Mais uma vez, a Frente do Recife – agora rebatizada de Frente Popular de Pernambuco – saiu vitoriosa das urnas, graças a um acordo de conveniências. Tal acordo seria rompido dois anos depois, quando o PSD apoiou o golpe militar e a deposição de Arraes.

1.6 Aliança Democrática: acordo pelo fim da ditadura

Um segundo exemplo de aliança que precisa ser exposto aqui é a união – impensável até então – de antigos e ferrenhos adversários gerados durante a ditadura pós-golpe de 64. Depois de cinco governos militares, e saturada da restrição aos direitos civis, a sociedade clamava pela distensão política, um sentimento que o próprio regime tinha consciência. Tanto que, em 1995, dentro do projeto de abertura lenta, gradual e segura instituído por Ernesto Geisel e tocado pelo seu sucessor na Presidência, João Figueiredo, seriam realizadas eleições presidenciais, ainda que indiretas, envolvendo candidatos civis.
Mesmo empenhado em restituir a democracia, o regime não pretendia se desapegar abruptamente do poder. Para tanto, Figueiredo e seus assessores mais próximos articulavam, dentro do PDS, partido governista, uma candidatura simpática aos militares. O nome escolhido foi o do ministro do Interior, Mário Andreazza.
O processo, porém, ganhou contornos dramáticos quando o ex-governador de São Paulo, Paulo Salim Maluf, lançou sua candidatura avulsa, para disputar com Andreazza, na convenção, a indicação do PDS. Maluf era visto pela cúpula do partido como pouco confiável e eleitoralmente fraco. Os setores das Forças Armadas ligados ao ex-presidente Geisel também não o viam com bons olhos. Esses dois grupos simpatizavam com o nome do vice-presidente Aureliano Chaves, mineiro de fala dura e bem articulado, que defendera a emenda das diretas, no ano anterior. Mas a raposa paulista já havia partido e estava bem à frente, arrebanhando forças por todo o País, fosse à base do diálogo, fosse no fisiologismo, com a distribuição de cestas básicas e ambulâncias para as bases políticas de vários deputados, sobretudo no Nordeste.
Figueiredo simplesmente lavou as mãos e deixou a disputa interna correr frouxa, embora não gostasse do seu vice, com quem há muito sequer falava. A ideia de promover uma prévia no PDS começou a ganhar corpo, mas o presidente a deteve e Aureliano, ciente de que na convenção perderia para Maluf, se retirou. Passaria, então, a confabular com outros dirigentes do PDS um rompimento que já vinha sendo especulado há alguns anos, quando um grupo de políticos mais jovens, eleitos pelo PDS, se colocou contra os métodos conservadores da cúpula, lançando a chapa “Participação”, para tentar conquistar a direção nacional do partido na convenção.
“Na Participação, éramos apenas um bando de jovens deputados que queriam confrontar o esquemão. Depois é que o processo evoluiu”. A análise, feita em 2000, pelo ex-deputado Saulo Queiroz, um dos integrantes do grupo que depois migraria para o PFL, consta no livro “O PFL”, da jornalista Eliane Cantanhêde (2001, p. 18).
No dia 18 de agosto de 1985, Maluf derrotou Andreazza na convenção, como era esperado. Aquilo apenas justificava a série de renúncias na direção do PDS que antecedera a convenção. José Sarney (MA), Jorge Bornhausen (SC), Guilherme Palmeira (AL) e Marco Maciel (PE), juntamente com o mineiro Aureliano, deixaram o partido para não apoiar o candidato escolhido. Mais que isso: saíram para fundar a Frente Liberal que, em janeiro de 1996, daria origem ao PFL. Saíram para buscar o diálogo com um antigo adversário, sobretudo de Aureliano: o governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, candidato escolhido pelo PMDB. A partir daquele momento, com o grande número de adesões de dissidentes – entre eles, todos os governadores do Nordeste, eleitos pelo PDS – a vitória de Tancredo começava a se consolidar.
Vejamos um fragmento de narrativa do então senador Marco Maciel, fundador do PFL, à jornalista Eliane Cantanhêde, no livro “O PFL”:
Nos chamam de fisiológicos, mas nós viabilizamos a vitória de Tancredo, a vitória da oposição, a vitória da redemocratização. E porque acreditávamos nesse processo. Se fosse para manter cargos e força política, o mais fácil era ficar com Maluf. Ele nos prometeu mundos e fundos. Escolhemos outro caminho porque era melhor para o País. (2001, p. 25-26)
De fato, o senador estava certo. Quando os dissidentes do PDS decidiram apoiar Tancredo Neves e se unir ao PMDB, ajudaram de forma importante a conter um movimento inverso. Já havia alguns políticos peemedebistas acreditando em uma vitória de Maluf e pensando em mudar de lado. Um dos principais representantes do “malufismo” no PMDB foi o deputado paulista José Camargo, que começara a articular votos para Maluf no Colégio Eleitoral, mas fracassou.
A coligação entre PMDB e Frente Liberal, batizada de Aliança Democrática, foi selada em 7 de agosto de 1984, alguns dias antes da convenção que homologaria a candidatura de Maluf. No dia 8, os peemedebistas homologavam a candidatura de Tancredo, tendo como vice – inclusive para garantir o acordo com a Frente Liberal – o ex-presidente do PDS, José Sarney, que deixara o partido e se filiara ao PMDB exatamente com esse objetivo.
O argumento da Aliança Democrática era o de restaurar a democracia e os direitos individuais e evitar a vitória de um candidato ligado ao regime militar, o que poderia comprometer a transição em curso. Nenhum dos artífices do acordo jamais admitiria que ele tivesse sido fechado apenas por conveniência, visando simplesmente garantir dividendos eleitorais. O fato é que aquela aliança abriria um precedente importante para futuros acordos políticos. Inclusive o que seria firmado quase dez anos depois, em Pernambuco.




2 ACENOS ENTRE VELHOS ADVERSÁRIOS


Oito anos depois do sucesso da Aliança Democrática – firmada entre PMDB e PFL para garantir a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral – o cenário, em Pernambuco, envolvendo os dois partidos, ainda era de total adversidade. Em 1990, peemedebistas e pefelistas haviam protagonizado novo embate, tendo como objetivo maior o governo do Estado, em uma briga ganha por Joaquim Francisco, do PFL, ao derrotar Jarbas Vasconcelos, do PMDB.
No entanto, virada a página daquela eleição, os dois adversários assumiram um tom mais ameno na convivência, deixando de lado a tradicional rivalidade entre peemedebistas e pefelistas, herdada da polarização MDB x Arena no período do regime militar. Não significava, porém, que já estivessem imaginando uma aproximação maior. Tanto que, dois anos depois, em 1992, estariam novamente em palanques distintos na disputa pela Prefeitura do Recife: e, então, foi a vez de Jarbas, candidato do PMDB e favorito absoluto, derrotar o pefelista André de Paula, que contava com o apoio do governador Joaquim Francisco.
Uma vez resolvida a eleição municipal, porém, o cenário começou a mudar de forma mais perceptível. No dia 23 de dezembro de 1993 – mais de um ano após o pleito municipal – a edição do Jornal do Commercio circulou com uma reportagem que levava o seguinte título: “Arraes acabou com o PMDB”. A afirmação fora feita no dia anterior pelo então prefeito Jarbas Vasconcelos, durante uma tensa reunião do diretório regional do PMDB.
Para alguns observadores políticos da época, aquele “desabafo” do prefeito peemedebista teria sido a senha para o início das negociações de uma até então impensável aliança com os pefelistas mirando um novo adversário em comum.
Após a eleição de 1990, Jarbas vinha transferindo toda a animosidade que mantinha há anos contra os pefelistas para o então deputado federal Miguel Arraes, do PSB. De fato – como revelam diversas reportagens publicadas a partir do pleito estadual de 90 – Jarbas culpava Arraes pela derrota da chamada Frente Popular, que unia PMDB, PSB e outros partidos menores.
Pouco antes daquela eleição, ainda investido no cargo de governador – do qual só se desincompatibilizaria em março de 1990, para disputar um mandato de deputado federal, em novembro – Arraes não estava convencido das chances de Jarbas Vasconcelos vencer o forte candidato do PFL. A forma que o governador encontrou de se precaver dos respingos de uma eventual derrota do aliado foi firmar uma aliança do seu PSB com o PMDB de Jarbas apenas para a eleição majoritária. Na disputa proporcional, porém, os socialistas optaram por uma coligação mínima, apenas com o PCdoB, formando o que se convencionara chamar de “chapinha”. Arraes passou a apostar sua alta popularidade na disputa para a Câmara Federal, deixando em segundo plano os esforços para eleger Jarbas governador de Pernambuco.
Na biografia intitulada “Arraes”, a jornalista Tereza Rozowykwiat narra o cenário da campanha do ex-governador a deputado:
Enquanto Jarbas afundava nas pesquisas, podia-se perceber claramente que a vitória de Arraes para deputado federal seria estrondosa. No interior, era tratado como um santo, assediado insistentemente por populares que queriam beijar sua mão, oferecer um abraço ou agradecer algum tipo de benefício. (...) O então candidato percorreu 100, dos 167 municípios existentes no Estado. Contou com o apoio de 17 prefeitos e 60 vereadores, o que é muito para uma campanha proporcional. (2006, p. 249)
As urnas comprovaram que a estratégia Arraes estava certa. No âmbito majoritário, Joaquim Francisco foi eleito junto com seu companheiro de chapa, o pefelista Marco Maciel, que disputava o Senado. Arraes, porém, obteve sozinho 339.158 votos para deputado federal, recorde histórico no país. A matemática do quociente eleitoral da época permitiu que as sobras de voto do ex-governador contribuíssem para eleger mais cinco deputados da “chapinha” PSB/PC do B, ainda que alguns deles tivessem obtido, individualmente, uma quantidade mínima de votos. Foram os casos de Renildo Calheiros (4.469 votos), Álvaro Ribeiro (3.734 votos) e Roberto Franca (3.256). Embora com votações maiores, Sérgio Guerra (23.099 votos) e Luiz Piauhylino (14.870 votos) também receberam sobras do recordista.
Para Jarbas, esses votos transferidos por Miguel Arraes aos companheiros da “chapinha” fizeram falta aos proporcionais do PMDB. Alguns deputados históricos terminaram empurrados para a suplência, como Cristina Tavares, Egídio e Maurílio Ferreira Lima. Aquele resultado seria o pivô de uma adversidade política jamais sanada, entre ele e Arraes.
Durante a citada reunião do diretório regional peemedebista, alguns correligionários discutiam a possibilidade de coligação com o PSB para apoiar a candidatura de Arraes, que no ano seguinte disputaria novamente o governo do Estado e já era apontado com antecedência como favorito absoluto. Jarbas, no entanto, era frontalmente contrário, pelas razões expostas acima, e imaginava, como alternativa, uma aliança com os antigos rivais pefelistas. Foi por isso que – conforme registrou o repórter José Ambrósio, do Jornal do Commercio – naquela reunião o prefeito do Recife esmurrou a mesa, levantou a voz e chegou a usar palavras de baixo calão para criticar os defensores do acordo com os socialistas.
Eis as declarações de Jarbas Vasconcelos, publicadas pelo JC:
Temos que contar a história como ela foi, e a ‘chapinha’ foi uma indignidade que arrasou o PMDB, que levou para Brasília deputados com dois mil votos. Quero ver um admirador de Cristina Tavares, de Egídio e Maurílio Ferreira Lima entrar numa dessas. (JC – 23/12/1993, p. 4)
Em outro momento tenso da reunião, Jarbas Vasconcelos voltou a criticar a proposta de aliança com o PSB de forma ainda mais dura, lembrando as dificuldades administrativas enfrentadas por Arraes, em sua gestão anterior, no Palácio do Campo das Princesas. E atacou seus próprios correligionários do PMDB, apressados em definir o apoio à candidatura socialista. O JC reproduziu parte do discurso do líder peemedebista:
Não vou pras ruas me comprometer com uma coisa que vai dar errada, porque já deu na última vez. Estão querendo chegar à candidatura de Arraes antes mesmo do PSB, como prostitutas sem-vergonha. (idem, p. 4)
O açodamento daquele segmento do PMDB, no entanto, tinha um motivo: as previsões negativas feitas por especialistas em matemática eleitoral. No pleito do ano seguinte, ao contrário do PSB, o PMDB pernambucano não dispunha de um nome excepcionalmente forte para “puxar votos” na disputa pela Câmara Federal. Por isso, corria o risco de não eleger nenhum deputado federal.
A solução imediata, encontrada por parte dos dirigentes estaduais do partido, era a coligação com o PSB de Miguel Arraes. No momento em que a proposta foi rechaçada, por Jarbas Vasconcelos, com tanta veemência, teve início uma debandada de prefeitos e prováveis candidatos a deputado do PMDB para as hostes arraesistas.

2.1 A teia da aliança se arma

Miguel Arraes reagiu com silêncio às críticas feitas por Jarbas Vasconcelos na reunião do PMDB. No entanto, após cinco dias, o deputado respondeu. Ainda que de forma breve, foi direto ao ponto, decifrando a questão ao afirmar que os ataques seriam movidos por uma vontade implícita de Jarbas de voltar a disputar o governo do Estado em 1994. Só que, desta vez, aliado aos antigos adversários do PFL. “Acho que Jarbas quer ser candidato, Esse ataque deve ser por causa das alianças que ele está fazendo”, declarou ao Jornal do Commercio, em matéria publicada no dia 28 de dezembro de 1993.
Arraes disse ainda que não se sentia responsável pela crise enfrentada pelo PMDB:
Eu já tinha saído do partido. Estão procurando um bode expiatório para justificar essa situação. (...) Jarbas apoiou meu programa de governo, fez campanha com ele em 1990 e agora quer soltar as amarras. Deve estar sendo convocado para se unir aos nossos tradicionais adversários. (JC – 28/12/1993, p. 4)
De fato, um dia antes, o deputado federal Gustavo Krause defendera a aliança com o PSDB e “parte do PMDB”. Krause declarou à imprensa que, em sua opinião, a candidatura ideal deveria unir a centro-direita à centro-esquerda, levando para o palanque o PFL, o PSDB e “o que sobrou de bom do PMDB”, no seu entendimento representado na figura de Jarbas Vasconcelos.
O prefeito do Recife respondeu com uma sinalização favorável ao acordo. No entanto, ao contrário do que Arraes havia previsto, avisou que não disputaria o governo. Preferia apoiar um candidato do PFL, e sugeriu o nome do deputado federal Roberto Magalhães. Em uma entrevista à Rádio Jornal, no dia seguinte à resposta de Arraes às suas críticas, Jarbas confessou não sentir constrangimento em apoiar o pefelista, e chegou a elogiá-lo como “uma pessoa respeitável”.
Dois dias depois, era a vez de Magalhães retrucar. Em entrevista ao JC, na qual rasgou elogios ao adversário peemedebista, ele descartou totalmente a hipótese de sair candidato e devolveu a responsabilidade para Jarbas Vasconcelos, que apontou como “o nome ideal” para se opor à candidatura de Arraes, encabeçando uma coligação que preferiu definir como “uma aliança em favor do progresso do Estado”. Estava aberto o caminho para a aliança.

2.2 Uma simbiose eleitoral

Miguel Arraes estava certo, em parte, quando afirmou que Jarbas Vasconcelos pretendia “soltar as amarras” e trilhar seu próprio caminho. Mas o prefeito peemedebista estava ciente de que, sozinho, pouco poderia fazer diante da força eleitoral do ex-governador, virtual candidato do PSB em 1994. Jarbas tinha um peso expressivo no Recife e certa abrangência política na Região Metropolitana, mas carecia de bases eleitorais no interior.
O PFL, por sua vez, dispunha de todas essas bases interioranas, conquistadas não apenas com a eleição de Joaquim Francisco para o governo, em 1990, mas, ao longo de muitos anos, pelos seus principais caciques. E nem sempre pela via moderna. Jarbas sabia – até porque, os tinha enfrentado durante anos – da existência de currais eleitorais bem montados pelos principais líderes pefelistas do Estado, a exemplo dos deputados federais Osvaldo Coelho, no Sertão do São Francisco; Inocêncio Oliveira, no Pajeú; e Ricardo Fiúza, na Zona da Mata, entre outros.
Restava, então, a opção de se render a quem ele sempre havia combatido. Durante a ditadura militar, ainda no MDB, Jarbas Vasconcelos foi líder da oposição ao governo Eraldo Gueiros (Arena) na Assembleia Legislativa. Em 1978, ele concorreu ao Senado Federal, em uma eleição marcada por denúncias e cuja apuração durara quase um mês, sendo, por fim, derrotado por Nilo Coelho graças à estratégia da sublegenda montada pela Arena.
Em 1984, Jarbas lutou pelas eleições diretas. Uma vez derrotada a emenda Dante de Oliveira , recusou-se a ir ao Colégio Eleitoral em 1985, votar em Tancredo Neves. Como integrante do grupo dos Autênticos do PMDB, ele justificou a ausência afirmando só aceitar o fim do regime de exceção pela ruptura política, jamais pela negociação, como terminou acontecendo após as articulações de Tancredo, que pertencia ao grupo dos Moderados.
Embora durante toda essa trajetória Jarbas tivesse se oposto frontalmente aos apoiadores do regime – inclusive na época em que estavam reunidos na Arena e, posteriormente, no PDS – havia canais abertos ao diálogo no Estado, graças à convivência, na Câmara dos Deputados, com líderes pefelistas como Roberto Magalhães e José Mendonça, e até mesmo com o senador Marco Maciel.

2.3 Mais que um almoço entre amigos

Coube ao deputado José Mendonça proporcionar o primeiro contato direto entre Jarbas Vasconcelos e a cúpula do PFL estadual. Sob o argumento de promover uma confraternização de fim de ano entre prefeitos, vereadores e lideranças de sua base eleitoral no Agreste, Mendonça organizou, no dia 5 de dezembro de 1993, um churrasco em sua fazenda, na cidade de Belo Jardim. Na lista de convidados, além do governador estavam os deputados estaduais e federais do PFL e, claro, o prefeito do Recife. Pela primeira vez, Jarbas e Joaquim Francisco sentavam à mesa para discutir, publicamente, os primórdios da aliança PMDB/PFL.
Diante da imprensa, presente ao evento em Belo Jardim, os dois governantes negaram que houvesse qualquer articulação de uma aliança ou frente contra a candidatura de Miguel Arraes ao governo, em 1994. Mas os prefeitos presentes, ligados a José Mendonça, não escondiam o otimismo com relação à montagem de um palanque unindo PMDB e PFL, conforme afirmou o peemedebista, Ivanildo Alves, de Palmares, ao Jornal do Commercio: “Tenho certeza de que no momento em que Jarbas Vasconcelos se posicionar como candidato, os prefeitos que estão aqui e muitos outros estarão com ele”. (JC – 06/12/1993, p. 4).
Do lado dos pefelistas também havia um clima de otimismo diante da hipótese de união entre os dois partidos, como assegurou o prefeito de Pesqueira, Evandro Chacon: “Não vejo razões que possam impedir uma aliança entre o PMDB e o PFL. Sempre defendi a tese de que temos que conversar mais e deixar de lado as divergências”. (JC – 06/12/1993, p. 4)

2.4 A base resiste

A despeito do otimismo externado por alguns dos prefeitos presentes ao almoço realizado na fazenda do deputado José Mendonça, em Belo Jardim, no dia seguinte as reações contrárias à tese da aliança começaram a pipocar nas bases de ambos os lados. Mas com maior evidencia entre os aliados de Jarbas Vasconcelos – os “jarbistas”, como se autointitulavam – que simplesmente não entendiam aquilo. Esses refratários ainda tinham bem viva na memória a campanha eleitoral para o governo do Estado, disputada três anos antes, recheada de trocas de farpas e ataques mútuos entre peemedebistas e pefelistas. Alguns líderes de pequenos grupos políticos interioranos não tinham argumentos para justificar um acordo com antigos adversários, com os quais as divergências locais eram, por vezes, tão profundas que não raro terminavam resolvidas até mesmo à bala.
O primeiro nome de maior representatividade a reagir foi o presidente nacional do PPS, deputado federal Roberto Freire, então líder do governo Itamar Franco na Câmara Federal. Em entrevista ao Jornal do Commercio, no dia seguinte ao almoço promovido por Mendonça, Freire afirmou que, nas conversas que vinha mantendo com o prefeito do Recife, havia ficado claro que ele buscava uma aliança muito mais à esquerda que com os liberais. De qualquer forma, o pós-comunista advertiu que seu partido jamais subiria em um palanque composto por Jarbas e Joaquim Francisco em 1994: “Não acredito nesse acordo. Mas se ele vier a acontecer, o PPS estará fora”. (JC – 07/12/1993, p. 3)
Na Assembleia Legislativa, as opiniões ficaram divididas. Enquanto o líder da bancada do PFL, Antônio Mariano, afirmava não vislumbrar dificuldades para a consolidação de uma aliança entre antigos adversários, o líder peemedebista Djalma Paes protestava, assegurando que as bases do seu partido rejeitariam qualquer acordo nesse sentido.
Os presidentes regionais das duas siglas – Dorany Sampaio (PMDB) e André de Paula (PFL) – se pronunciaram no dia seguinte ao almoço entre Jarbas Vasconcelos e Joaquim Francisco. Mas, ao contrário das posições antagônicas dos líderes na Assembleia, sinalizaram a favor do diálogo. Para o dirigente peemedebista, o entendimento entre os dois partidos poderia resultar em um programa conjunto de recuperação econômica de Pernambuco. Já o pefelista se limitou a colocar a legenda “aberta ao diálogo”, mas ressaltou que os planos de candidatura própria do PFL permaneciam firmes.
Dois dias depois, foi a vez de as bancadas federais das duas siglas se pronunciarem. E os deputados optaram pela forma “branda” adotada pelos dirigentes partidários. Parlamentares do PFL e do PMDB deixaram claro que os rumos políticos em Pernambuco estavam interligados às articulações nacionais, e delas dependeriam as alianças políticas locais. Um dos pefelistas, porém, o deputado José Jorge Vasconcelos, foi direto ao ponto: em sua opinião, a única saída para o PMDB pernambucano evitar o esvaziamento total da sua representação parlamentar em Brasília seria negociar alianças políticas, inclusive com o PFL, embora discordasse que esse acordo demandasse como exigência ceder a cabeça de chapa para Jarbas Vasconcelos em 1994.
Contrários à iniciativa dos caciques de envolver as articulações entre as duas legendas rivais em panos mornos, alguns prefeitos e vereadores começaram a ameaçar, abertamente, deixar o partido, alegando “desrespeito às bases”. Não adiantou o presidente regional, Dorany Sampaio, declarar aos jornais que todo o PMDB seria consultado antes de qualquer fechamento de acordo.
O colunista político do Jornal do Commercio, Inaldo Sampaio, escreveu, no dia 9 de dezembro de 1993 que, após ter-se sentado à mesa com o comando do PFL, Jarbas Vasconcelos teria que assumir, de imediato, a candidatura a governador; caso contrário, entraria nas negociações de uma aliança entre PMDB e PFL com um cacife reduzido, graças ao número de aliados descontentes com a sua postura. Sampaio citou, nominalmente, os prefeitos peemedebistas Valdeci Torres (Belo Jardim), Erivânia Camelo (Arcoverde), Fernando Bezerra Coelho (Petrolina), José Gualberto (Santa Maria da Boa Vista) e Raimundo Cavalcante (Afrânio).
Um dos vereadores da lista dos “rebeldes”, Luiz Pereira (Cabo de Santo Agostinho), resumiu a situação de descontentamento das bases em entrevista ao Jornal do Commercio: “É impossível juntar o PFL, que abriga a maioria dos joaquinzistas, com o PMDB aqui no Cabo, porque os pefelistas representam o que há de mais atrasado”. (JC – 09/12/1993, p. 4)

2.5 O tertius

Alheio aos apelos – inclusive de alguns pefelistas – para que assumisse a candidatura ao governo do Estado, Jarbas Vasconcelos permaneceu irredutível. Depois de manter a situação em suspense no primeiro trimestre de 1994, no início de abril ele anunciou que não iria enfrentar Miguel Arraes nas urnas. A decisão pegou de surpresa não apenas o PMDB, mas também os futuros aliados do PFL, que já haviam praticamente abandonado a iniciativa de lançar candidato próprio, certos de que o prefeito do Recife era o nome que reunia mais condições de disputa.
Jarbas reuniu a imprensa e divulgou uma carta aberta, explicando as razões que o levaram a desistir de concorrer. No texto, reproduzido pela jornalista Tereza Rozowykwiat, no livro “Arraes”, ele priorizou os ataques a Miguel Arraes, acusando-o de manter uma prática “populista e retrógrada” e de ter apresentado, no seu governo anterior – transcorrido no período de 1987 a 1990 – um mau desempenho político e administrativo. O peemedebista advertiu ainda que o Estado não poderia “ficar à mercê de um projeto pessoal embalado ao sopro de perspectivas de êxito puramente eleitoral, destituído de conteúdo programático”. (2006, p. 260)
Na mesma carta em que justificava sua desistência, o então virtual candidato do PMDB não deixou de defender – com alguma garra, é bom frisar – a perspectiva de aliança com os adversários do PFL, conforme registrou a jornalista Tereza Rozowykwiat:
Tal perspectiva (a candidatura Arraes) exige de todos um esforço de superação de intolerâncias, de harmonização de divergências menores, em benefício do objetivo maior de soerguer o Estado, reconhecendo com lucidez e objetividade que essa não pode ser tarefa de um ‘messias’ populista que assenta seu prestígio na prática retrógrada de um coronelismo ultrapassado, porque soerguer o Estado constitui responsabilidade histórica de todos os pernambucanos que amam sua terra e sua gente. (2006, p. 261)
Pego de surpresa com o recuo de Jarbas Vasconcelos, restou ao PFL partir, tardiamente, em busca de um nome com um mínimo de condições para enfrentar Miguel Arraes. Ainda não havia o dispositivo da reeleição, e o governador Joaquim não havia preparado um sucessor, como deveria. Inclusive porque, após romper com o então presidente Fernando Collor de Mello, ele se viu obrigado a deixar o PFL em outubro de 1992, e só retornou ao partido em dezembro de 1993, após o desfecho do processo de impeachment , para assumir as articulações da aliança com o PMDB.
Nome mais cotado dentro do PFL para enfrentar Miguel Arraes, o deputado Roberto Magalhães manteve-se firme na recusa da delegação. Surgiu, então, a opção pelo deputado federal Gustavo Krause, um dos ideólogos do PFL. Krause fora prefeito do Recife por indicação do governador Marco Maciel (1979 a 1982) e, em seguida, eleito vice-governador na chapa de Roberto Magalhães, de cujas mãos assumiu o comando do Estado de março de 1986 a março de 1997.
Político pragmático, e com uma visão bastante ponderada do processo sucessório, Krause sabia ser uma missão árdua disputar contra o favoritismo de Arraes. Colocou, então, algumas condições para aceitar a tarefa. Entre elas, o apoio de Jarbas Vasconcelos, conforme declarou ao Jornal do Commercio:
Estou disposto à luta, mas é preciso que se consolidem algumas pré-condições, como a reprodução da aliança nacional com o PSDB, o apoio do prefeito do Recife Jarbas Vasconcelos e a unidade do PFL. (JC – 22/04/1994, p. 3)
Duas das condições já estavam encaminhadas. Faltava resolver uma questão “doméstica”: a resistência do influente deputado federal Osvaldo Coelho, principal líder político do Sertão do São Francisco, que desejava fazer do filho, Guilherme Coelho, governador do Estado. Em um desgastante processo de discussão, o parlamentar exigiu da direção do PFL a realização de prévias internas para a escolha do candidato. Mas a interferência dos caciques do partido, sobretudo do senador Marco Maciel e do presidente André de Paula, terminou por debelar a crise com uma proposta salomônica: Enquanto Gustavo Krause tinha um perfil urbano, ligado à Região Metropolitana do Recife, Guilherme Coelho, ex-prefeito de Petrolina, contemplava as bases no interior. Era o nome ideal para candidato a vice-governador na chapa pefelista.
Faltava, então, oficializar o apoio de Jarbas Vasconcelos à chapa do PFL. O acerto foi feito pelo prefeito do Recife, no dia 26 de abril, em um encontro reservado com o governador Joaquim Francisco, revelado posteriormente à imprensa. A presença de Jarbas estava assegurada no palanque de Krause, independentemente da postura a ser adotada pelo PMDB ou pelo PSDB, cujas bases ainda reagiam a uma aliança formal com os pefelistas.
No dia 29 de abril, após uma reunião a portas fechadas no Palácio do Campo das Princesas, Jarbas Vasconcelos anunciou seu apoio integral à candidatura Krause, mas apenas em “caráter pessoal”. O PMDB propôs a formação de uma coligação branca com os pefelistas, evitando coligar formalmente com a forte chapa proporcional do PFL e enfrentar o risco de não eleger nenhum deputado federal ou estadual. Porta-voz do encontro, que contou ainda com os presidentes do PFL, PMDB e PSDB, o próprio governador informou o Jornal do Commercio sobre o resultado das negociações:
O prefeito (do Recife) reiterou seu apoio a Krause e ele vai para o nosso palanque participar da campanha. Mas a aliança com o PMDB está mais difícil. Jarbas não conseguiu unir o partido nem em torno dele. Já a aliança com o PSDB é possível. O partido deve ter espaço na nossa chapa. (JC – 30/04/1994, p. 5)

2.6 Um “até breve” ao PMDB

Se entre os pefelistas, a decisão de Jarbas Vasconcelos causou satisfação e alívio, o mesmo não aconteceu dentro do seu próprio partido. Choveram críticas de peemedebistas à opção feita pelo seu líder maior de apoiar a candidatura de um antigo rival “em caráter pessoal”, divergindo formalmente da legenda. Um dos mais duros ataques partiu do prefeito de Petrolina, Fernando Bezerra Coelho, que classificou como “palhaçada” a condução do processo sucessório pela direção da sigla.
Um dia antes do fechamento do acordo entre Jarbas e o PFL, Bezerra Coelho havia disparado, em entrevista ao Jornal do Commercio:
Jarbas e Dorany estão agindo com irresponsabilidade ao impedir que as bases definam os rumos que irão tomar nas próximas eleições. Estão tratando a sucessão com pândega (troça). Os prazos estão se esgotando e a direção não adota a postura correta para encaminhar o processo. (JC – 29/04/1994, p. 4)
Como fator agravante, Jarbas Vasconcelos discordava frontalmente da candidatura presidencial do ex-governador paulista Orestes Quércia, pelo PMDB. Ele defendia o apoio ao nome do ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, seu ex-companheiro do grupo dos Autênticos do MDB, ao lado do qual lutou contra o regime de exceção. FHC tinha como companheiro de chapa o senador pernambucano Marco Maciel, em uma aliança formal com o PFL.
Isolado, só restava a Jarbas uma saída para seguir o caminho que pretendia naquele pleito: deixar o PMDB. Foi o que ele fez, em 6 de maio de 1994. A expectativa era de que ingressasse no PSDB, unindo-se a outros ex-companheiros do antigo MDB, mas o prefeito optou por permanecer sem partido. Na carta, encaminhada às direções nacional e regional do PMDB, justificou que desde o ano anterior vinha tentando convencer o partido da necessidade de uma política de alianças que ajudasse a superar a crise vivida pelo país. E observou que era com esse objetivo que admitira disputar o governo do Estado, em uma aliança com o PFL, além de contribuir para que o PMDB nacional distendesse também a sua política de alianças. Ele acrescentou que, em sua opinião, a candidatura Quércia levaria o partido para “um profundo isolamento”. E ao se referir especificamente a Pernambuco, alegou ter tentado unir a sociedade “contra o atraso e a mistificação” representada, segundo ele, pela candidatura de Miguel Arraes a governador.

2.7 Cid Sampaio, o anticandidato

Com a saída de Jarbas Vasconcelos, do PMDB, para subir em um palanque adversário, o partido ficou sem alternativas para a disputa majoritária. A solução foi lançar um nome próprio, embora sem densidade eleitoral, apenas para figurar na disputa e dar, assim, um palanque aos candidatos proporcionais e ao presidenciável da sigla, Orestes Quércia.
O nome escolhido foi o do ex-governador e ex-senador Cid Sampaio, usineiro cujo candidato ao governo, João Cleófas, fora derrotado por Miguel Arraes, em 1962. No dia 29 de maio de 1994, a convenção estadual do PMDB homologou – por 116 votos a favor, 81 contrários, um nulo e um em branco – a candidatura Cid. No dia seguinte à convenção, o presidente do PMDB, Dorany Sampaio, um dos mais fieis seguidores de Jarbas Vasconcelos, avisou que não permitiria dissidências no palanque de Cid, como podemos ver na advertência que fez em entrevista ao Jornal do Commercio:
Não haverá dissidentes porque não haverá dois PMDBs. Tinham duas posições até a convenção decidir o caminho do partido. Não existe ninguém livre para desacatar a decisão da convenção. A questão não é de liberdade, é de ética. (JC – 31/05/1994, p. 3)
A determinação do dirigente não surtiu o efeito esperado por ele. Uma parte do grupo derrotado na convenção, que defendia o apoio a Miguel Arraes e uma aliança com o PSB, terminaria aderindo informalmente ao palanque da Frente Popular. À frente do grupo, vários prefeitos do interior, liderados pelo petrolinense Fernando Bezerra Coelho. Como naquele pleito nenhum deles disputaria novo mandato, decidiram se posicionar na eleição como dissidentes, mesmo enfrentando a ameaça de expulsão.

2.8 As previsões de Arraes

Ao saber da decisão de Jarbas Vasconcelos de deixar o PMDB e buscar abrigo no palanque dos tradicionais adversários, Miguel Arraes reagiu de forma discreta, embora asseverando que suas previsões haviam se confirmado quando declarara que o ex-aliado estaria buscando uma justificativa para “mudar de lado”.
A partir daquele momento, todas as vezes em que era criticado por Jarbas durante a campanha, Arraes passou a responder com a mesma fórmula. Sempre que indagado sobre os ataques, repetia o bordão: “Eu permaneço onde sempre estive: ao lado do povo. Quem mudou foi Jarbas”. Arraes não estava certo apenas nessa afirmação. Alguns anos depois, ele veria se confirmarem as suas previsões acerca do real propósito do ex-aliado ao firmar a aliança com o PFL: o de chegar ao governo do Estado.




3 UM PROJETO DE VINTE ANOS DE PODER


Com Miguel Arraes eleito governador, em 1994, e investido, definitivamente, no papel de principal adversário, a aliança PMDB-PFL começou a ganhar solidez na oposição. Após as derrotas de Cid Sampaio, em Pernambuco, e de Orestes Quércia, em nível nacional, Jarbas Vasconcelos, que apoiara a candidatura presidencial vitoriosa do tucano Fernando Henrique Cardoso, surpreendeu o PSDB – que já contava com sua filiação – ao anunciar seu retorno ao PMDB. O argumento era de que não conseguia cortar suas raízes, fincadas no partido que ajudara a fundar.
Ao optar pela sua antiga sigla, em vez da social-democracia do PSDB, Jarbas já tinha na cabeça um desenho do mapa político que pretendia implantar no Estado, traçando, antecipadamente, uma estratégia para chegar ao poder. Primeiro, ajudaria o PFL a eleger o prefeito do Recife, em 1996, dessa vez numa aliança formal com o PMDB, sacramentada com a indicação de um candidato a vice-prefeito peemedebista. Garantindo a hegemonia na capital, onde ele próprio era mais forte, partiria, nos dois anos seguintes, para percorrer todo o interior pernambucano, visando à disputa estadual, quando esperava contar com o apoio dos pefelistas a sua investida, na qual teria como vice, é claro, alguém indicado pelo PFL.
O único “senão” no projeto de Jarbas de suceder Miguel Arraes era a insistência do presidente Fernando Henrique Cardoso em enviar ao Congresso Nacional uma emenda constitucional que permitiria a reeleição para cargos do Executivo. Se aprovada, a proposta garantiria não só ao presidente, mas também aos governadores, o direito de disputarem novos mandatos. Arraes poderia, então, ser novamente candidato. E se, por um lado, o peemedebista imaginava ter que enfrentar toda uma máquina governamental contra si, na campanha de 1998, por outro, alimentava, secretamente, a expectativa de um confronto direto com o seu novo inimigo político.
Menina dos olhos de FHC, a emenda da reeleição foi encaminhada ao Congresso Nacional exatamente um mês após a sua posse na Presidência da República. O curioso é que o deputado federal escolhido para apresentá-la, no dia 1º de fevereiro de 1995, foi o pernambucano José Mendonça Bezerra Filho, do PFL. A aprovação do texto, porém, foi marcada por muita polêmica e denúncias de compras de voto, que resultaram, inclusive, na perda de mandato de alguns deputados.
A emenda foi aprovada, definitivamente, no dia 4 de junho de 1997. Além de assegurar o direito de Fernando Henrique disputar novo mandato em 1998, ela ajudou a aprimorar a estratégia desenvolvida por Jarbas Vasconcelos para o novo mapa político em Pernambuco. Não se tratava mais simplesmente de derrotar Miguel Arraes e garantir o poder para a aliança PMDB-PFL.
Com a reeleição como dispositivo constitucional, o objetivo da aliança ficava bem mais ousado: vencer a disputa no Recife, em 1996, e o pleito estadual de 1998. Consolidar essas vitórias na eleição municipal de 2000 por todo o Estado, pavimentando a recondução do próprio Jarbas, em 2002, ao governo, para que ele pudesse, em 2006, eleger seu sucessor, a quem caberia, por sua vez, manter as rédeas até 2010 e tentar a reeleição. Estava pronta a tese de duas décadas de poder em Pernambuco.

3.1 Pragmatismo eleitoral: a aliança é posta à prova

Inicialmente, a briga pela Prefeitura do Recife, em 1996, seria travada entre a aliança PMDB-PFL, enfim formalizada, tendo Jarbas Vasconcelos como principal liderança, e a Frente Popular, comandada pelo governador Miguel Arraes (PSB), que uniria, no mesmo palanque, todas as forças ligadas ao governo do Estado. O PT, no entanto, embora ainda representado no primeiro escalão estadual pelo Secretário de Saúde, Jarbas Barbosa, começava a pontuar críticas à gestão de Miguel Arraes e buscar um distanciamento.
Essa não era a vontade unânime do partido. O segmento comandado pelo deputado federal Humberto Costa defendia a unidade da Frente Popular em torno de uma candidatura única no Recife, que seria a do próprio Humberto. Outras tendências petistas, porém, questionavam o comando de Arraes e desejavam pular fora do palanque. Uma prévia, realizada no início de 1996, definiu Humberto como candidato; mas, sem conseguir costurar a aliança com o governador, ele renunciou à postulação em favor do segundo colocado nas prévias, o deputado estadual Paulo Rubem Santiago, cujo nome também não unia toda a legenda.
Foi a vez de Santiago abandonar a candidatura, entregue, então, ao terceiro colocado na disputa interna, o deputado estadual João Paulo, que topou a parada. Sem um nome forte para representá-lo da eleição da capital, Arraes improvisou uma chapa com o senador Roberto Freire (PPS), tendo como vice o deputado federal Fernando Lyra (PSB). Mas tanto João Paulo quanto Freire ficariam para trás diante da candidatura do ex-secretário de Obras, de Jarbas Vasconcelos, na Prefeitura: João Braga.
Abandonado pelo “chefe”, que optou pelo palanque da aliança PMDB-PFL e apoiou a candidatura fortíssima do deputado federal Roberto Magalhães (PFL), tendo como vice o peemedebista Raul Henry, coube a Braga, naquela disputa, o papel de principal opositor. O tucano só não ficou completamente sozinho porque o apoio de Jarbas a Magalhães rachou o forte movimento popular do Recife: metade seguiu o prefeito e a outra metade permaneceu com o ex-secretário de Obras.
Ao final da disputa, graças ao apoio de Jarbas Vasconcelos, Roberto Magalhães venceu, no primeiro turno, com 317.625 votos, mais que a soma dos votos recebidos por todos os outros candidatos. Na última entrevista antes daquela eleição, concedida ao Jornal do Commercio, o candidato pefelista se antecipou e ressaltou o empenho do aliado do PMDB:
Um ponto fundamental que eu ressaltaria para o êxito da campanha, independente do resultado das urnas, é a harmonia entre os partidos da aliança. Sob o ponto de vista eleitoral, o que mais me sensibiliza é a total dedicação de Jarbas à minha campanha. Eu diria que Jarbas fez pela minha campanha o que faria se ele fosse o candidato. (JC – 29/09/1996, p. 8)
No dia 6 de outubro, confirmada oficialmente a sua vitória pela Justiça Eleitoral, o futuro prefeito voltou à imprensa para se comprometer em dar continuidade à gestão do seu maior cabo eleitoral. Mas, mais que isso, prometeu honrar o acordo feito entre os dois partidos, garantindo o apoio à candidatura de Jarbas Vasconcelos ao governo do Estado, em 1998. Estava armado o primeiro palanque estadual, ainda a dois anos do próximo pleito.

3.2 Enfim, o grande duelo

Imediatamente após passar o cargo ao novo prefeito do Recife, Jarbas Vasconcelos deflagrou a estratégia para 1998, que consistia em aproveitar o ano de entressafra eleitoral para se “apresentar” nos municípios do interior. O ex-prefeito já tinha o nome consolidado na capital e em parte da Região Metropolitana, mas dependia do PFL para entrar nas bases eleitorais onde o governador Miguel Arraes era mais forte: a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão.
Enquanto o peemedebista percorria o Estado, escoltado pelos maiores caciques políticos do PFL, a Frente Popular se via às voltas com o dilema da reeleição, aprovada em junho de 1997. Por princípio, Arraes era radicalmente contrário à proposta, e não cogitava por seu nome à disposição para a disputa contra Jarbas, por entender que não “arejava” o processo.
Ao mesmo tempo, porém, o governador – um estudioso da política mundial – sentia que a sistemática da reeleição de governantes era uma tendência que ganhava cada vez mais força na América Latina. E em Pernambuco, embora publicamente nenhum dos seus aliados falasse de forma favorável, nos bastidores Arraes enfrentava uma intensa pressão para que aceitasse entrar na disputa, sob a justificativa de que não havia outro nome com densidade para enfrentar a aliança PMDB-PFL.
A hesitação do governador quase implodiu a Frente Popular. Dessa vez, porém, não foram os petistas que ameaçaram sair do palanque, mas as bases do próprio PSB. Alguns prefeitos de cidades importantes começavam a passar para o lado jarbista. Foi a gota d’água para que Arraes aceitasse encarar novamente as urnas. Não sem antes receber o aval da própria família. Duramente criticado pelos adversários, ele assumiu a nova candidatura prometendo lutar contra a “política do ódio”. Em um comício em Caruaru, ele contra-atacou os adversários da aliança PMDB-PFL, conforme registrou a jornalista Tereza Rozowykwiat em seu livro:
Minha pessoa não tem importância, não está em causa. O que importa são os nossos objetivos. O que não se pode admitir é a volta da política em que, para se ter eletrificação era preciso dispor de um cartão assinado por um político. Esta política significa a volta dos que me discriminaram, das forças obscurantistas que vão me atacar enquanto eu existir, porque atacam as posições que eu sempre defendi. (2006, p. 319)
A partir dali, os ataques dos opositores ao governador não mais cessaram, até o final da campanha. A estratégia inicial foi obstacular o processo de privatização da companhia de eletricidade do Estado, a Celpe, já em negociação. Uma consulta ao Tribunal de Contas da União, feita pelo deputado federal pefelista Mendonça Filho, futuro vice na chapa de Jarbas, provocou uma recomendação do tribunal ao Ministério da Fazenda para que analisasse um importante adiantamento dos recursos que seria repassado a Pernambuco pelo BNDES. A força política do PFL, junto ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, atuou para que o processo fosse engavetado no ministério, provocando uma quebradeira nos cofres do Estado.
A investida, no entanto, não enfraqueceu o ânimo do governador e seus aliados. Pelo contrário, pareceu servir como argamassa para solidificar a candidatura de Arraes à reeleição, oficializada por ele no dia 22 de junho, faltando oito dias para o encerramento do prazo das convenções que homologariam os candidatos. O governador reuniu, no Palácio, 105 prefeitos do Estado que o apoiavam, e fez o esperado anúncio, em um discurso emocionado, que foi registrado pelo Jornal do Commercio:
Eu nunca disse antes que aceito (ser candidato), mas aceito com o compromisso de todos nós lutarmos. Não só pelos meios que possamos utilizar, mas solicitando de casa em casa e de sítio em sítio. Estou certo que o povo de Pernambuco vai dar uma resposta. Vamos enfrentar (a campanha) porque recuo não haverá nessa luta. (JC – 23/06/1998, p. 5)

3.2.1 O mote do desenvolvimento

Poucos dias depois de Arraes assumir a disputa pela reeleição, foi a vez da aliança PMDB-PFL – agora intitulada União por Pernambuco – oficializar seus candidatos majoritários. Em uma rápida solenidade no auditório do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco, no dia 26, Jarbas Vasconcelos se apresentou como candidato a governador e anunciou seus dois companheiros de chapa. Para o Senado, o PFL lançava seu vice-presidente nacional, deputado José Jorge de Vasconcelos. E o cargo de vice-governador seria disputado pelo também deputado pefelista José Mendonça Filho, cujo pai patrocinara, em 1993, o primeiro encontro entre Jarbas e Joaquim Francisco, em sua fazenda de Belo Jardim, para dar início às articulações que levariam a aliança ao poder no Estado.
Selado definitivamente o acordo entre PMDB e PFL, faltava um mote que o justificasse para além da questão meramente eleitoral. E foi providenciado pelo próprio Jarbas, ao discursar naquela cerimônia: a aliança entre dois antigos adversários foi a única maneira encontrada para tentar soerguer a economia de Pernambuco – que perdera espaços importantes para o Ceará e a Bahia – e abrir caminhos para a retomada do seu desenvolvimento, mas “sem ficção”. O Jornal do Commercio registrou o discurso do candidato peemedebista, no qual ele também aproveitou para alfinetar seu futuro adversário:
O meu programa de governo será o mais realista possível. Não dá para propor ficção. O principal problema hoje em Pernambuco é a má administração dos recursos. Nenhum governo recebeu mais recursos do que o de Arraes, que contou com R$ 400 milhões dos precatórios na conta única do Estado. (JC – 27/06/1998, p. 4)
Primeiro candidato eleito pela aliança PMDB-PFL, coube ao prefeito do Recife, Roberto Magalhães – mestre de cerimônias daquela solenidade – o discurso em tom mais otimista. Embora tenha advertido contra o “triunfalismo”, para que a União por Pernambuco não subestimasse os adversários da Frente Popular, ele externou um sentimento que a maioria dos integrantes da coligação partilhava, mas preferia não declará-lo: graças ao fim do divisionismo político e à presença de Jarbas Vasconcelos unindo o palanque das oposições, a campanha estava ganha.
Dois dias depois, seria realizada a convenção conjunta da União por Pernambuco. Uma festa em tom morno, realizada no Clube Português do Recife, onde a ordem de evitar, nos discursos, o clima de “já ganhou”, que tomava conta dos aliados, foi cumprida à risca. Sem deixar de provocar Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos reforçou o mote do desenvolvimentismo e da necessidade de mudança na economia pernambucana. O Jornal do Commercio publicou tópicos do discurso do candidato oposicionista no dia seguinte à convenção:
Pernambuco quer trocar a decadência pelo desenvolvimento. Mudar para desenvolver, para criar empregos. Antes de definir os compromissos que estamos assumindo hoje, fomos escutar os pernambucanos. Das mulheres e homens de todas as regiões (do Estado) ouvi apelos por novas oportunidades de trabalho para seus filhos. Pernambuco quer um governo que em vez de se lamentar e culpar os outros, mobilize suas forças e enfrente nossos problemas. Que trabalhe. (JC – 29/06/1998, p. 6)
Embora depois de eleito Jarbas tenha, de fato, demonstrado preocupação em estimular o crescimento econômico do Estado, durante a campanha eleitoral o mote do desenvolvimentismo tinha como principal finalidade polemizar com os arraesistas. E a cada estocada dos jarbistas eles reagiam, abrindo espaço para uma discussão da qual sempre saíam perdendo.

3.2.2 Os precatórios e o “caminho da perdição”

O discurso desenvolvimentista, apregoado pelos jarbistas, não resistiu às primeiras semanas de campanha, dando lugar a uma segunda estratégia anti-Arraes, bem mais agressiva que a primeira, centrada na venda da Celpe. Tendo Jarbas à frente, a aliança PMDB-PFL passou a acusar o governador de corrupção e desvio de verbas, com base na operação de venda de títulos públicos do Estado para pagamento de precatórios, feita na sua gestão. Aquele foi um golpe mais duro para Arraes, que se orgulhava de afirmar publicamente sua lisura durante mais de 40 anos de vida pública.
As denúncias da oposição foram encaminhadas ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro – fiel ao PFL, que o nomeara para o cargo – que pediu o indiciamento do governador, embora nada houvesse de novo, no caso, que justificasse a iniciativa. O “escândalo dos precatórios” foi batizado dessa forma pela experiente equipe de marqueteiros da oposição, comandada pelo publicitário Antônio Lavareda, da empresa MCI Estratégia. E, sob esse nome, o caso foi amplamente explorado nos programas eleitorais gratuitos de rádio e televisão veiculados pela coligação jarbista, misturado à assertiva de que o governo Arraes fora marcado pelo “baixo astral”, em contraponto ao “alto astral” da gestão de Jarbas na Prefeitura do Recife.
Conhecido por não entrar em confronto direto com opositores ao rebater críticas, preferindo delegar aos aliados a missão de responder, em alguns momentos o bombardeio jarbista tirou Arraes do sério. Em um deles, o governador-candidato bateu duro na opção política, feita pelo seu principal adversário, de aliar-se aos antigos rivais do PFL. A declaração foi registrada pela jornalista Tereza Rozowykwiat:
Jarbas representa o lado podre do seu partido. Em toda a minha vida pública, nem os mais radicais adversários, nem mesmo os militares, tiveram condições de me agredir dessa forma. Mas Jarbas seguiu outro caminho. Ele pode ir bem nas pesquisas, mas o povo vai entender que ele tomou o caminho da perdição e que está no rumo errado. (2006, p. 326)
O “escândalo dos precatórios”, na avaliação de alguns especialistas no cenário político da época, não foi o único responsável pela derrota da Frente Popular, em geral, e de Miguel Arraes, em particular. Mas pavimentou o caminho para desacreditar toda a gestão do governador e de alguns aliados importantes, como o seu neto e Secretário da Fazenda, Eduardo Campos, também indiciado no processo movido pelo Ministério Público.
As dúvidas jogadas sobre a idoneidade de Arraes só seriam sanadas após a eleição. E foram sanadas pelo próprio Jarbas Vasconcelos, já investido no poder. Numa prova da legalidade na operação dos precatórios, o novo governador baixaria, em 15 de julho de 1999, um decreto (nº 21.562/99) definindo normas para o refinanciamento dos títulos públicos que, até então, ele dizia considerar nulos, passando a apontá-los como válidos. Calado desde a derrota de 1998, Arraes só comentaria o assunto quatro anos depois, como foi registrado em sua biografia:
É irrefutável a conclusão de que o dr. Jarbas utilizou a mentira como principal arma em sua campanha de 1998 e também em outras oportunidades. Isso está comprovado por documentos oficiais, alguns dos quais da lavra do próprio Jarbas Vasconcelos. É o caso do decreto em que os títulos são declarados irregulares para, posteriormente, e na surdina, reconhecer-lhes a legalidade e a legitimidade. (2006, p. 327)

3.2.3 Uma derrota histórica

O resultado final da disputa de 1998 não trouxe grandes surpresas. Favorito em todas as pesquisas de intenção de votos, Jarbas Vasconcelos liquidou a fatura logo no primeiro turno, encerrando um ciclo e impondo a Miguel Arraes a sua primeira derrota em uma eleição majoritária. A surpresa viria após o Tribunal Regional Eleitoral proclamar o resultado final, anunciando uma diferença, pró-Jarbas, superior a um milhão de votos e decretando a derrota do candidato da Frente Popular em todas as regiões do Estado, do Sertão ao litoral.
Embora a vitória tivesse certo sabor de revanche para os pefelistas – derrotados duas vezes, por Arraes, em disputas pelo governo do Estado – para Jarbas Vasconcelos os 1.809.705 votos obtidos, contra 744.202 de Arraes, tinham um significado bem mais especial. Afinal, como disseram seus adversários ao longo da campanha, ele havia “tomado o caminho da perdição”, ou “vendido a alma ao diabo”. O que, de fato, importava ao peemedebista era ter dado o troco a Arraes pela derrota sofrida em 1990, quando acusara o então governador aliado de não se empenhar na sua campanha.
Jarbas, no entanto, rechaçou de pronto a tese do revanchismo. Em entrevista coletiva, logo após ser declarado eleito, o futuro governador retomou o mote do desenvolvimento econômico, prometeu buscar o apoio do presidente Fernando Henrique Cardoso – reconduzido ao cargo naquele mesmo pleito, com o seu apoio – e, igualmente importante, se comprometeu em manter a aliança que o elegeu, administrando o Estado em parceria com o PFL. Quanto a Arraes, procurou não revelar seu contentamento com a derrota imposta ao “mito”. Eis o que disse o peemedebista, conforme registro do Jornal do Commercio:
Não é uma sensação individual, pessoal, porque quem derrotou o governador não fomos nós individualmente, foi o povo de Pernambuco. Chamado às ruas, o povo pôs fim a um ciclo, a uma era em Pernambuco, se propondo a votar na gente, afinado com as mudanças. Sinto-me uma pessoa normal, comum. Isso não pode me envaidecer, a gente tem de respeitar os derrotados, espero apenas que se respeite os vencidos, a vontade do povo. Quem derrotou Arraes foi o povo, de forma ampla. (JC – 06/10/1998, p. 6)
No dia seguinte à proclamação do resultado das urnas, caciques dos partidos da Frente Popular convocaram a imprensa para eximir Miguel Arraes de culpa pela derrota. E mais: afirmaram que a candidatura do governador à reeleição fora um “erro”. Candidato a vice, na chapa, e coordenador da campanha da Frente Popular, Fernando Bezerra Coelho avaliou que a derrota não foi política, mas apenas eleitoral, e isentou Arraes, admitindo que “nós o convocamos. Não conseguimos reunir forças para equilibrar a disputa. A culpa foi nossa. Doutor Arraes poderia ter disputado com tranqüilidade um mandato de deputado federal”. (JC – 07/10/1998)
As declarações de Bezerra Coelho, porém, não encontraram respaldo junto ao neto de Arraes, o ex-secretário da Fazenda, Eduardo Campos, que conseguiu renovar o mandato de deputado federal. Responsabilizado por aliados como principal incentivador da reeleição, tendo por objetivo apenas garantir a renovação do próprio mandato de deputado federal, Campos afirmou à imprensa que a candidatura fora decisão do próprio Arraes. Revelou, inclusive, ter envidado esforços, juntamente com o tio e cineasta Guel Arraes, na tentativa de dissuadir o governador da ideia de enfrentar Jarbas Vasconcelos. “Ele nos disse, porém, que não era homem de fugir à luta. Respeitamos sua posição e fomos com ele, apesar das adversidades”, contou Eduardo Campos. (JC – 07/10/1998)
Por três dias Miguel Arraes adiou a entrevista coletiva na qual reconheceria a derrota, o que fez no dia 8 de outubro, em um encontro com jornalistas no Salão das Bandeiras, do Palácio do Campo das Princesas, sob tumulto provocado pelos assessores que aplaudiam e gritavam palavras de ordem, na tentativa de evitar perguntas mais duras dos repórteres. Na entrevista, porém, Arraes desmentiu as afirmações do neto, Eduardo Campos, ao declarar ter sido candidato contra a vontade. O governador comparou o cenário ao de sua prisão durante golpe de 1964, assegurando já ter enfrentado situações mais desfavoráveis. Mas, ao final, revelou o tom de derrota:
Gostaria de dizer que minha candidatura não era do meu desejo. Fui convocado pelos meus companheiros. Aceitei sem maiores ilusões. Mas não foi só pelo fato de ter sido convocado, a razão central está no fato de que não tinha outro nome que tivesse condições de organizar as forças de esquerda. (JC – 09/10/1998, p. 6)
No dia 31 de dezembro daquele ano, Miguel Arraes deixava, pela terceira vez, o Palácio do Campo das Princesas. Após os incidentes da campanha eleitoral e do pós-eleições, e temendo ainda ser hostilizado, ele recusou-se a passar o cargo, pessoalmente, ao sucessor, Jarbas Vasconcelos. O governador escreveu um comunicado ao povo de Pernambuco explicando suas razões, e decidiu não transmitir o cargo ao vice-governador, Jorge Gomes, nem aos sucessores legais da Assembleia Legislativa e Tribunal de Justiça. Coube ao chefe da Casa Militar entregar as chaves do Palácio ao seu novo ocupante.
A cerimônia de despedida de Arraes foi marcada pela emoção de familiares, assessores e funcionários. Às 17h 30, o governador passou a tropa em revista pela última vez, agradeceu a todos os colaboradores e deixou o Palácio. Na sua última entrevista investido no cargo – registrada pela jornalista Tereza Rozowykwiat, em seu livro – Arraes garantiu que continuaria na vida pública, com ou sem mandato, e lembrou a época da ditadura militar. “Já refiz minha vida várias vezes. O povo sabe que estou sempre à disposição para ajudar a reduzir dificuldades, lutar por suas causas. Essa é uma coisa que sempre fiz e farei até o final”. (2006, p. 330).




4 BARCO DA ALIANÇA COMEÇA A FAZER ÁGUA


Em 1998, no período pós-eleitoral, já tiveram início as articulações para as eleições municipais, de 2000, no Estado. As atenções, porém, se voltavam para a capital, onde o prefeito Roberto Magalhães, primeira “cria” da aliança PMDB-PFL, disputaria a reeleição. Ao comemorar sua própria vitória, dois anos antes, o governador eleito, Jarbas Vasconcelos, antecipara apoio ao pefelista; porém, era preciso aguardar a composição do cenário eleitoral, o que não demorou a se desenhar.
Magalhães se lançou à reeleição, apoiado pela aliança PMDB-PFL, e recebeu o reforço do PSDB, que indicou o deputado federal Sérgio Guerra como vice, na chapa. Nas oposições, sobravam candidatos, quase todos remanescentes da Frente Popular, que implodira após a derrota de Arraes em 1998. O PT apresentou, novamente, a candidatura do deputado estadual João Paulo – que disputara em 1996 – tendo na vice o ex-deputado federal Luciano Siqueira, do PC do B. O PPS lançou o senador Carlos Wilson Campos, em uma aliança com o PSB, que indicou o ex-secretário de Administração do Governo Arraes, Dilton da Conti, para vice. E havia três chapas “puras”: a do PDT, formada por Vicente André Gomes e Alberto Salazar, a do PSN, com Frederico Brandt e Charber Nader, e a do PSTU, com Carlos Pantaleão e Kátia Telles.
Ao longo da campanha, o cenário foi se definindo com Magalhães na liderança, embora em uma posição mais apertada que em 96. Em seu encalço vinha João Paulo, seguido de perto por Wilson, cujo principal cabo eleitoral se tornou uma atração à parte: o personagem Mané Chinês, criado pelo ator Walmir Chagas, cujas tiradas bem-humoradas fustigavam o prefeito. Magalhães, de fato, “apanhava” de todos os lados. Mas, contrariando seu temperamento explosivo, insistia em não revidar, adotando a estratégia de mostrar as obras que fez quando governador e na Prefeitura, além de exibir o palanque forte, com Jarbas, Guerra, o vice-governador Mendonça Filho e vários parlamentares do PMDB, PFL e PSDB que apareciam na televisão ou nos eventos de rua.

4.1 A “banana” e a gravata

Mas não demoraria muito até que o prefeito cedesse às intensas provocações dos adversários. Além disso, a União pelo Recife – como passou a ser chamada a aliança – começou a enfrentar ruídos internos. Integrantes do comando da campanha divergiam sobre estratégias, ações e até acerca da linha do discurso. Acrescente-se a isso o excesso de confiança da militância, reconhecido pelo próprio candidato a vice, em entrevistas aos jornais.
No último domingo da campanha do primeiro turno, Magalhães, enfim, externou a raiva contida dos ataques recebidos. Aproveitando a manhã de sol, a União pelo Recife realizava uma carreata na praia de Boa Viagem. O prefeito, porém, não resistiu às provocações de um grupo de militantes petistas que estavam na calçada; desceu do carro e tentou partir para a briga. Houve troca de insultos e empurra-empurra entre petistas e aliados do prefeito. Contido por Jarbas Vasconcelos, Magalhães terminou flagrado pelos fotógrafos fazendo gestos com as mãos – conhecidos como “bananas” – para os adversários. As fotos da “banana” e da confusão foram parar nas primeiras páginas dos jornais do Estado, amplamente reproduzidas nos programas de TV dos candidatos do PT e do PPS. Estava feito o estrago no palanque pefelista.
O resultado dos erros acumulados no primeiro turno explodiria no rosto dos aliados no dia da votação. Ao contrário das previsões dos institutos de pesquisas, que davam a vitória a Roberto Magalhães logo no primeiro turno, João Paulo chegou a 35% dos votos, levando a disputa no Recife, pela primeira vez, ao segundo turno. O prefeito obteve 49,42% dos votos, contra 50,58% da soma dos demais candidatos.
A campanha do segundo turno começou quente. João Paulo recebeu o reforço do candidato derrotado do PPS, Carlos Wilson e, junto com ele, veio “Mané Chinês”, detestado pelos aliancistas. Roberto Magalhães manteve o mesmo palanque do primeiro turno, mas sofreu com a ausência da militância dos candidatos a vereador, cuja eleição já se definira na primeira etapa. Os aliados estavam cientes de que uma vitória da oposição, na capital, era o que poderia acontecer de pior à União pelo Recife. Principalmente para Jarbas Vasconcelos, derrotado no maior colégio eleitoral do Estado, onde foi prefeito por duas vezes e acreditava não ter grandes adversários.
Logo na primeira semana, uma crise se abateu sobre os aliados após vazar à imprensa um discurso feito pela primeira-dama, Jane Magalhães, no comitê feminino. Ela comparou o PT ao regime cubano de Fidel Castro e lembrou a queda do Muro de Berlim. Postura diametralmente oposta à de Jarbas que, após aliar-se ao PFL, passara a defender o fim da polarização ideológica entre direita e esquerda. O prefeito, porém, ficou ao lado da esposa e passou a questionar as orientações do marqueteiro da campanha, Antônio Lavareda.
Jarbas e Magalhães só voltaram a afinar o discurso quando passaram a pregar juntos que uma vitória do PT representaria “a volta do arraesismo”, derrotado dois anos antes. Mas a trégua não demorou muito. A primeira rodada da pesquisa Datafolha, uma semana após o início do segundo turno, revelou uma vantagem de nove pontos para João Paulo sobre Magalhães (51% a 42%) e detonou um clima dramático no comitê da União pelo Recife.
Coube a Jarbas convocar uma reunião da militância para pedir empenho nas ruas. Diante de uma desanimada plateia formada por líderes comunitários, parlamentares e secretários estaduais e municipais, no pátio do comitê, o governador assumiu a linha de frente. E em um gesto que entraria para a história das campanhas no Estado, arrancou a gravata que usava e prometeu empenho pessoal para reeleger o prefeito. O Jornal do Commercio registrou o fato:
Não posso abandonar meus compromissos como governador, mas a partir de amanhã só trabalharei até uma hora da tarde. Depois vou às ruas, de jeans e tênis. Essa gravata, só tiro do armário no dia 30. Construímos essa aliança com luta. Eram dois partidos que brigavam entre si. Eu e Roberto não pensamos sempre igual, mas conseguimos nos unir por Pernambuco e pelo Recife. Quem acredita em mim e na aliança, vota em Roberto. Quem quiser destruir essa aliança, que vote no outro. Encontramos um Estado destruído e o estamos recuperando. Agora, o candidato do PT, apoiado por Arraes, diz que é o novo, mas quem representa mudanças é a nossa aliança. Sou eu, o governador. E não será uma pesquisa que vai mexer com a cabeça de vocês (JC – 11/10/2000, p. 3)
Na reestreia, os programas eleitorais gratuitos de TV e rádio trouxeram novidades: a União pelo Recife mudou completamente sua linha, abandonando a estratégia de mostrar obras do prefeito e partindo para o confronto com os petistas. O programa tinha um jingle novo, cuja letra associava o PT à baderna e ao atraso, e exibia imagens de confusões provocadas pelos sem-terra, vinculando-os ao partido de João Paulo. Também usou recortes de jornais para mostrar a aproximação do PT com Arraes, apontado como ícone do atraso.
Mais comedidos, os petistas adotaram o clima de festa, comemorando a ida ao segundo turno e mostrando a “onda vermelha” que tomou conta da cidade. Contudo, não esqueceram das estocadas em Magalhães, classificado como “raposa em pele de cordeiro”. O nível dos programas iria daí para pior, com o comando da campanha do prefeito cometendo uma série de erros estratégicos que comprometeriam, definitivamente, suas chances de vitória.
Analistas políticos previram, na época, que a transferência de votos de Jarbas para Magalhães poderia não se repetir, como acontecera em 1996, quando dois elementos positivos foram apresentados ao eleitor: os altos índices de popularidade de Jarbas na prefeitura e a aliança com antigos adversários em torno de um projeto maior para a capital e para Pernambuco. Naquele pleito de 1996, quem tivesse o apoio de Jarbas teria amplas chances de êxito. Já em 2000, a análise era diferente. A “roupa” que havia sido talhada pelo marqueteiro Antônio Lavareda para o candidato aliancista ao governo, em 1998, não vestiu bem em Magalhães, que teria que arcar com os ônus da sua própria gestão.
Foi o que ocorreu. Na noite de 29 de outubro, abertas as urnas, o Recife tinha novo prefeito. Com uma vantagem de apenas 5.835 votos – foram 382.988 votos dados a João Paulo, contra 377.153 computados para Magalhães – o PT assumia, pela primeira vez, o comando da capital, graças, em parte, aos erros cometidos pela coligação jarbista. E coube ao próprio Jarbas admitir a derrota como sua, embora ressaltando que trabalharia incansavelmente para manter firme a aliança entre PMDB e PFL e garantir respaldo a sua própria reeleição, dentro de dois anos. A edição do Jornal do Commercio do dia seguinte registrou as declarações do governador:
Assumo: é uma derrota minha sim. A população não quis votar nos meus candidatos. Agora, vocês nunca me viram falando na tese do andor. Essa derrota foi um mero episódio eleitoral. A população votou contra o governo do Estado, governo federal e prefeitura e temos que avaliar isso. A nossa aliança continua firme e forte. Não será um episódio como esse que irá mexer. Ela precisaria ser muito frágil para isso. (JC – 30/10/2000, p. 4)
Roberto Magalhães, por sua vez, recusou-se a responder às perguntas dos jornalistas, após o resultado das urnas. Dizendo-se “derrotado pela emoção”, limitou-se a discursar para a militância, no comitê da coligação, atribuindo o resultado à “vontade de Deus” e, desde já, pedindo votos para a reeleição de Jarbas, em 2002. O discurso também foi registrado pelo Jornal do Commercio:
Não me considero derrotado, lutei pela melhor causa, por uma aliança que tirou Pernambuco da estagnação. Perdemos uma batalha que é própria da democracia. Vocês tinham dois timoneiros. A metade do Recife resolveu que um dos timoneiros deveria descer do barco. Reverencio e respeito. Nos resta o timoneiro principal: o governador Jarbas. Vamos manter a aliança e mostrar aos pernambucanos em quem podem confiar. Daqui a dois anos teremos um novo pleito para o governo. Desde já quero que os robertistas estejam preparados para levar Jarbas à reeleição. (JC – 30/10/2000, p. 4)

4.2 Jarbas dá a volta por cima

A derrota de Roberto Magalhães, no Recife, só não complicou a reeleição de Jarbas Vasconcelos para o governo do Estado, dois anos depois, pelo fato de, em 2000, o governador ter assegurado a vitória de mais de uma centena de prefeitos ligados à aliança jarbista, em todo o Estado – fossem eles do PMDB, PFL, PSDB ou de outros partidos coligados – fortalecendo a sua própria base política. Mesmo assim, a derrota na capital exigiu de Jarbas uma extrema habilidade para manter unido o seu palanque, uma vez que alguns caciques do PFL, como o deputado Osvaldo Coelho, do Sertão do São Francisco, começavam a questionar se não seria o momento de o partido voltar a ter candidato próprio a governador. Mas os obstáculos à reeleição foram, aos poucos, debelados por um núcleo político forte, composto por Jarbas e pelos presidentes regionais do PFL, PMDB e PSDB, além de alguns parlamentares com jogo de cintura.
Uma vez solucionados esses questionamentos internos, o caminho estava aberto, posto que não havia oposição com força suficiente para fazer sombra ao trator governista. Ainda ressabiados com a derrota de Miguel Arraes, em 1998, os oposicionistas lutavam para costurar um palanque único, com densidade suficiente para enfrentar a chapa encabeçada por Jarbas, que tinha Mendonça Filho, novamente, como vice e dois fortes candidatos ao Senado: o pefelista Marco Maciel e o tucano Sérgio Guerra.
Entretanto, o projeto de reunificação da Frente Popular não prosperou e as oposições saíram divididas e fragilizadas. O senador Carlos Wilson, agora no PTB, iria disputar a reeleição e era tido como o nome com maiores chances de vitória. Faltava consolidar uma chapa majoritária de peso. Depois de muitas articulações, o PT se uniu ao PC do B na Frente das Oposições, definindo o nome do vereador Humberto Costa, para o governo, o do comunista Paulo Dantas, para a vice e o do petista Dilson Peixoto, para a outra vaga ao Senado. O PSB não aceitou a proposta de aliança com o PT e lançou a candidatura “olímpica” de Dilton da Conti para o governo. O PDT, que também não fechou acordo, foi representado pelo dirigente estadual Ilo Jorge.
Nenhum dos nomes das oposições significava uma ameaça real ao favoritismo de Jarbas Vasconcelos. Seu maior adversário vinha da esfera nacional: o desgaste do presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, seu aliado, e a desaceleração dos efeitos do Plano Real – provocada pela crise econômica internacional, que havia demandado a elevação do câmbio. Concorrendo à Presidência pela quarta vez, o petista Luiz Inácio Lula da Silva começava a ganhar terreno nas pesquisas, sem que o ex-ministro José Serra (PSDB) – candidato apoiado por FHC e Jarbas – conseguisse impedir aquele avanço. O governador passou, então, a esconder o palanque. Não apenas os tucanos, mas também o PFL, que integrava a aliança nacional com o PSDB. Assim, conseguiu evitar que o desgaste recaísse sobre a sua própria candidatura e seguiu cravando índices nas pesquisas que indicavam a vitória no primeiro turno.
Abertas as urnas, no dia 6 de outubro Jarbas havia assegurado, para si, uma fatia de 60,4% do eleitorado do Estado. Foram 2.064.184 votos, contra 1.165.531 do petista Humberto Costa. Ele ainda elegeu consigo os dois senadores da União por Pernambuco, Maciel e Guerra, além de garantir uma forte bancada de deputados federais e estaduais. A eleição revelou que a “roupa” talhada para o peemedebista, quatro anos antes, ainda vestia perfeitamente bem. Embora servisse única e exclusivamente nele, como os pleitos seguintes iriam mostrar.

4.3 Um festival de equívocos

Mesmo tendo derrotado Humberto Costa, no primeiro turno, em 2002, Jarbas Vasconcelos manteve o PT como principal adversário da aliança. Embora se preparasse para a disputa municipal observando cada movimento do tabuleiro petista, o governador conseguia separar as diferenças políticas das questões administrativas. Ele e o prefeito João Paulo celebraram tantas parcerias em obras no Recife que chegaram a receber críticas por parte dos próprios aliados, desconfiados de tamanha afinidade.
Todavia, com a proximidade do pleito, os ânimos começavam a se acirrar. E ao contrário do PT, que já dispunha de um candidato natural, a aliança jarbista enfrentava uma série de problemas que impediam uma definição imediata. A primeira dificuldade era a disputa interna entre os deputados federais peemedebistas Carlos Eduardo (Cadoca) e Raul Henry, os dois mais votados do partido em 2002. Favorito para a PCR em 1996, Cadoca argumentou ter sido preterido em favor de Roberto Magalhães, opção que consolidava a aliança com o PFL, e terminou legitimando-se como candidato em 2004, embora Jarbas não escondesse a preferência por Henry, que também agradava mais ao PFL e ao PSDB.
Escolhido o candidato, veio a segunda dificuldade: compor a chapa. O PSDB dizia ter “direito adquirido” à vice, uma vez que desde a sua chegada à aliança, em 1998, não tinha apresentado um candidato majoritário. Já o PFL exibia a sua “reserva eleitoral” no Recife – um eleitorado cativo que beirava os 30%. Cadoca avocou a coordenação do processo para si e trouxe para a coligação, o PP, do deputado federal Severino Cavalcanti, garantindo mais três minutos no horário de TV e rádio e assegurando a candidatura a vice para a deputada estadual Ana Cavalcanti, filha de Severino. No rastro do PP ainda vieram para o palanque cadoquista quatro pequenas siglas: PTN, PRTB, Prona e PT do B.
A campanha para a Prefeitura do Recife começou com o ex-governador Joaquim Francisco – ex-pefelista e ex-aliado do PMDB, agora candidato pelo PTB – liderando as pesquisas, com Cadoca em segundo, e o prefeito João Paulo em terceiro lugar. Mas o cenário mudou rapidamente, graças à polarização entre a aliança jarbista e o PT, relegando Joaquim à terceira colocação. Cadoca e João Paulo ficaram empatados até meados de agosto, quando uma série de fatores provocaria a virada definitiva do petista.
O primeiro problema vivido pela aliança – agora denominada União pela Mudança – era a ausência dos caciques na campanha. A queda contínua de Cadoca nas pesquisas fez com que PFL e PSDB se voltassem para os candidatos com chances reais de vitória em prefeituras do interior, deixando Jarbas Vasconcelos praticamente sozinho no palanque da capital. Primeiro foi o senador tucano, Sérgio Guerra, que a duas semanas da eleição já admitia a derrota do aliado (JC – 04/10/2004, p. 3). No mesmo período, o ex-ministro Gustavo Krause – um dos ideólogos do PFL – declarou que a oposição “falhou” no trabalho de desmonte da imagem de João Paulo, que deveria ter começado no dia seguinte à sua chegada à PCR. (JC – 04/10/2004, p. 3)
O segundo problema foi um erro de estratégia. No dia 20 de agosto, o programa de TV da União pela Mudança levou ao ar o depoimento de uma moradora de Brasília Teimosa, a artesã Maria do Socorro dos Santos, que se queixava da prefeitura ter urbanizado a orla daquela comunidade, onde antes havia os casebres sobre palafitas, mas não tinha entregue as casas prometidas aos moradores desalojados. Três dias depois, porém, a artesã apareceu no programa de TV de João Paulo, afirmando que havia dado aquele depoimento contra o prefeito “sob pressão”. Dona Socorro contou que a esposa de Cadoca, Berenice de Andrade Lima, lhe havia convencido em troca de vantagens financeiras e da promessa de apoio jurídico a um dos seus filhos, que estava preso. O episódio extrapolou os programas e virou mote da campanha de todos os candidatos, para desespero dos coordenadores da campanha.
No dia 3 de setembro, a artesã voltou ao noticiário, denunciando ter sido sequestrada e agredida por um grupo de homens. Socorro foi encontrada, por dois menores, amarrada no mangue, nas redondezas do Cabanga. O caso foi entregue ao Grupo de Operações Especiais (GOE) e virou um pesadelo na campanha da União pela Mudança. A situação piorou quando o advogado da artesã, Dominici Mororó – integrante do Movimento Nacional dos Direitos Humanos – foi perseguido por homens em carros e motos com placas frias. Após alguns dias de investigação, descobriu-se que os veículos pertenciam ao serviço de inteligência da Casa Militar, do governo do Estado. Jarbas e seu candidato ficaram sob forte bombardeio do Movimento dos Direitos Humanos e da bancada de oposição na Assembleia Legislativa, que articulava uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar a “espionagem” por parte do governo. Jarbas divulgou nota classificando o caso como uma “armação eleitoral” dos adversários de Cadoca, como registrou o Jornal do Commercio:
É de estarrecer que se queira imputar ao governo de Pernambuco, comandado por pessoas que sempre estiveram à frente da luta pelo restabelecimento da democracia no Brasil, na época mais obscura da nossa história recente, a acusação de desrespeito aos direitos humanos. (JC – 19/09/2004, p. 5)
O governo barrou a “CPI da espionagem”, mas não conseguiu segurar os índices de Cadoca nas pesquisas, que despencaram, apontando para a vitória do prefeito, logo no primeiro turno. A tendência se confirmou no dia 3 de outubro. Com 458.846 votos (56,11%), João Paulo garantiu mais quatro anos de poder para o PT, no Recife. Cadoca ficou em segundo, mas com 225.847 votos (27,62%), bem aquém do esperado por seus aliados. Joaquim Francisco manteve a terceira posição com 76.587 votos (9,37%).

4.3.1 Autofagia pós-eleitoral

Após admitir a derrota, Cadoca se recolheu com a família e decidiu permanecer em silêncio. Dez dias depois, porém, o marqueteiro da sua campanha, Antônio Lavareda, convocou uma entrevista na qual se eximiu de culpa não apenas pela derrota da aliança, mas também pelo caso “Dona Socorro”. Ele responsabilizou publicamente a esposa de Cadoca, Berenice, por trazer a artesã para a campanha. Eis um trecho da entrevista reproduzida pelo Jornal do Commercio:
Ou a campanha de João Paulo se aproveitou da fragilidade de dona Socorro e produziu uma falsa acusação, e dessa forma se lança uma mancha sobre a legitimidade de sua vitória, ou a esposa do candidato (Cadoca) teria cometido um brutal e desnecessário equívoco que custou a credibilidade e a sorte da campanha (...). Esse episódio foi decisivo para evitar o 2º turno. Muito provavelmente se não tivesse ocorrido nós o teríamos. Se íamos ganhar ou não é outra questão. Mas a MCI não tem nenhuma responsabilidade. (JC – 14/10/2004, p. 3)
As declarações do coordenador de comunicação da campanha aliancista provocaram uma reação indignada por parte de Cadoca, que também convocou os jornalistas para rebater ponto por ponto. Ele acusou Lavareda de faltar com a ética, atribuiu ao marqueteiro parte da culpa pelo seu insucesso e disse que não esperava “milagres”, mas desejava que o marketing ao menos consolidasse os 34% de intenções de votos que ele tinha nas pesquisas, antes dos programas de TV. Em um dos pontos mais duros da entrevista, Cadoca classificou as declarações de Lavareda como “o retrato do desespero da culpa”, e saiu em defesa da esposa, conforme registrou o Jornal do Commercio:
É mentira que Berenice foi a pessoa que encaminhou Maria do Socorro para a equipe do guia. Há um conflito entre a declaração de Lavareda e a declaração do jornalista Mauro Bastos, contratado dele, no Diário de Pernambuco no dia 6 deste mês. De fato, quem encaminhou Socorro para o guia foi o comitê. Bastos disse, no entanto, que “considerava uma grande sacanagem o uso pelo PT do nome da mulher do candidato”. Durante o processo eleitoral foram encaminhadas dezenas de pessoas do comitê para a equipe do guia eleitoral. Fato corriqueiro. Absolutamente normal. A escolha das pessoas que iriam aparecer no programa era de total responsabilidade do marketing, comandado por Lavareda. Maria do Socorro foi apenas mais uma. Quando ela foi usada contra nós, transformando-se em um personagem polêmico, o marqueteiro desesperou-se, perdeu o rumo da campanha e não conseguiu reverter a situação. O caso, portanto, vai recair no sofá da MCI, no colo de Lavareda. (JC – 15/10/2004, p. 5)

4.3 2006: A implosão da aliança

A aliança jarbista chegou, enfim, à sua maior prova de fogo, nas eleições de 2006, quando estaria novamente em disputa o governo do Estado, só que com Jarbas Vasconcelos impedido, por lei, de concorrer a um terceiro mandato. Era o momento de o governador saldar o débito com os pefelistas, apoiando a candidatura do vice-governador, Mendonça Filho, para sucedê-lo. Mas o processo se complicou durante o período pré-eleitoral, no final de 2005, quando o senador Sérgio Guerra, do PSDB, passou a reivindicar a indicação como candidato.

Jarbas demorou a intervir na disputa interna – sob o argumento de que não pretendia ser antidemocrático – e, somente em meados de fevereiro de 2006, pouco antes de se desincompatibilizar do cargo para disputar o Senado, ele anunciou a sua opção pelo pefelista. Todavia, a briga com o senador tucano terminou por desgastar a imagem de Mendonça Filho, enquanto candidato “natural” da aliança. Ainda assim, Jarbas conseguiria unir todo o bloco em torno do seu vice, em cujas mãos entregaria, definitivamente, o governo, no dia 31 de março de 2006. Ao oficializar a pré-candidatura de Mendonça Filho, Jarbas deu a seguinte declaração ao Jornal do Commercio, na qual se explicou e cobrou unidade dos partidos em torno do candidato:
Eu poderia ter dado uma solução antes, se eu fosse autoritário, não tivesse a formação que tenho, graças a Deus, democrática, aprendida no combate à ditadura dentro do MDB, depois do PMDB, no convívio com as pessoas, com a imprensa. A gente apanha. Se eu tivesse sido um açodado, fazendo política na base da improvisação, eu talvez tivesse resolvido isso em janeiro, mas preferi demorar, conversar. Chegamos a um desfecho com um candidato preparado. Vou me empenhar na campanha dele como fiz nas minhas próprias e com todas as outras pessoas que apoiei. Não tenho dúvidas de que assim também vai proceder o PMDB, o PFL, o PSDB e os outros partidos da aliança. (JC – 24/02/2006, p. 4)
Ao contrário de Jarbas, que conseguiu superar as disputas internas na sua coligação, as oposições não conseguiram conciliar os interesses dos dois principais partidos de oposição, PT e PSB, que tinham nomes pré-colocados na disputa. Dessa forma, foram lançadas as candidaturas do petista Humberto Costa e do socialista Eduardo Campos (PSB). Os dois haviam sido ministros no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que então concorria à reeleição, e disputavam seu apoio no Estado. Mas, atendendo a um pedido do próprio Lula, Humberto e Eduardo evitaram o confronto direto. Agiram, durante toda a campanha, como aliados e uniram forças no combate ao palanque jarbista.
No entanto, a estratégia da aliança – que voltara a assumir o nome de União por Pernambuco – era centrar fogo apenas no candidato petista, considerado pelos marqueteiros jarbistas como mais difícil de ser batido, inclusive por ter índices mais altos nas pesquisas. Enquanto Eduardo Campos corria por fora, em uma campanha de “formiguinha”, baseada no contato direto com o eleitor, Humberto Costa era alvo de um intenso bombardeio nos programas eleitorais de rádio e televisão da União por Pernambuco.
O bordão principal dos ataques era seu suposto envolvimento no caso que ficou conhecido como “Máfia dos Vampiros”. Tratava-se de um grupo de pessoas, ligadas ao Ministério da Saúde, que vendia hemoderivados com preços superfaturados, desde a época do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que tivera no mesmo ministério o tucano José Serra. Ao assumir, Humberto pediu uma investigação à Polícia Federal, e terminou ele próprio indiciado, embora sem provas. O petista só seria inocentado mais de dois anos depois.
O fogo cerrado da aliança contra o candidato petista rendeu frutos. Ao final do primeiro turno, Humberto recebeu apenas 25% dos votos válidos no Estado. Mendonça Filho venceu a disputa, com 39,3% dos votos, tendo Eduardo em segundo, com 33,8%.

4.4.1 Novos personagens num velho confronto

Como não conseguiu ultrapassar a casa dos 50% dos votos, o candidato da União por Pernambuco se viu obrigado a enfrentar um segundo turno, que de certa forma reeditava o confronto histórico entre Jarbas Vasconcelos e Miguel Arraes, travado em 1998. Dessa vez, porém, esperava-se que os herdeiros políticos apresentassem estratégias mais arrojadas e discursos propositivos. Mas o que se viu foram algumas repetições de antigos bordões de campanha.
Sempre no ataque, Mendonça Filho lançou mão da mesma munição usada por Jarbas contra Arraes, adotando o discurso de que ele e seu antecessor peemedebista haviam recebido um Estado “quebrado” das mãos do ex-governador socialista, em 1999 e, em oito anos de gestão da aliança PMDB-PFL, haviam estruturado Pernambuco. O pefelista voltou a tocar na ferida dos precatórios, embora Eduardo já tivesse sido inocentado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Após o primeiro turno, Mendonça Filho revelou sua estratégia:
Agora no mano a mano a coisa vai ser diferente. Eduardo Campos vai ter que dar um bocado de explicações ao povo de Pernambuco. Eu vou cobrar. Vou colocar do outro lado o histórico do nosso adversário: o que ele fez, o que deixou de fazer, os descaminhos em que ele deixou Pernambuco. Tenham certeza de que ele não vai botar a sua história debaixo do tapete. Vai ter que tirar os precatórios e a gente vai debater como ele quebrou o Estado e como nós o reconstruímos. (JC – 02/10/2006, p. 4)
Eduardo Campos, porém, adotou estratégia inversa à do adversário. Também adiantou, após saber que estaria no segundo turno, que discurso pretendia seguir para vencer a aliança jarbista. Prometeu uma campanha de “paz, amor e vitória”, sem ressuscitar o clima do confronto entre Jarbas e seu avô, Miguel Arraes. Informado sobre a estratégia anunciada por Mendonça Filho, o candidato do PSB declarou aos jornalistas:
Não vamos cair no jogo deles, da baixaria. Temos que ter humildade, equilíbrio e sensatez. Vamos deixar que eles fiquem ventríloquos do mesmo marketing que tem perdido toda eleição. Essa estratégia (da aliança) é uma confissão de derrota. Eles perderam e estão desesperados. Já experimentei derrotas e aconselho o PFL a aprender com o resultado das urnas. (JC – 02/10/2006, p. 5)
Embora não tenha conseguido levar Mendonça Filho à vitória logo no primeiro turno, Jarbas Vasconcelos saiu das urnas de 2006 como o senador mais votado da história de Pernambuco. Teve, ao todo, 2.031.261 votos, contra 835.980 do seu principal oponente, Luciano Siqueira (PC do B). No balanço final, Jarbas venceu a disputa para o Senado em 139 cidades.
A transferência de votos para o seu candidato a governador, porém, novamente falhou. Enquanto a União por Pernambuco voltou a bater no adversário e estadualizar a campanha – evitando qualquer vinculação com seu presidenciável, Geraldo Alckmin (PSDB/PFL) – Eduardo Campos ignorou os ataques e manteve o discurso propositivo, falando nos seus planos para o futuro do Estado, ao tempo em que prometia governar em parceria com o presidente Lula, cuja reeleição ele dava como favas contadas.
O resultado não chegou a surpreender, porque confirmou o que as pesquisas de intenção de votos, feitas ao longo do segundo turno, indicavam: Eduardo Campos era o novo governador, com 2.623.297 votos, contra 1.390.273 de Mendonça Filho. O socialista venceu a disputa em 171, das 184 cidades do Estado, inclusive nos 13 municípios da Região Metropolitana do Recife, onde Jarbas Vasconcelos era, antes, considerado imbatível.
Embora o êxito nas urnas tenha devolvido o poder à Frente Popular, Eduardo teve uma vitória particular, que muitos classificaram como “revanche” pela derrota imposta por Jarbas a Arraes. Na verdade, foi mais que isso. Ao sair da eleição com 65,3% dos votos, o socialista implodiu, de uma vez por todas, o projeto da aliança PMDB-PFL, traçado inicialmente para garantir o poder no Estado por, pelo menos, vinte anos.
Um dia depois de proclamado o resultado do pleito, o senador eleito, Jarbas Vasconcelos, mentor da aliança, deu a seguinte declaração, em entrevista à Rádio Jornal:
O futuro da União por Pernambuco vai caber aos partidos que a integram fazer suas avaliações. Vamos ter tempo para definir os próximos passos. Não é nem oito nem oitenta. Nem ficar parado, nem querer fazer tudo de uma vez. Vamos entrar num período invernoso. Perdemos a eleição, faltaram votos, e a derrota atinge a todos: eu perdi, Mendonça perdeu, a União por Pernambuco perdeu. Cabe respeitar a soberania do eleitor que votou muito em sintonia com o presidente da República. Lula exerceu um papel importante no primeiro turno e mais ainda no segundo. Cabe a gente agora acompanhar isso. (JC – 31/10/2006, p. 8)

4.5 Cada um por si

A implosão da aliança jarbista deu, à disputa municipal de 2008, uma roupagem totalmente nova, com a qual o eleitor há muito não estava acostumado. Enquanto a Frente Popular se unia em torno de um só candidato, o deputado estadual petista João da Costa, as oposições se fragmentavam em três palanques distintos. Outro detalhe que diferenciava o pleito dos demais era a ausência de caciques como candidatos. Mesmo o ex-governador Mendonça Filho, do DEM (ex-PFL) – que entrou na briga como favorito, segundo as primeiras pesquisas de intenção de voto realizadas no início da campanha – não poderia ser apontado como um nome de peso.
O PMDB de Jarbas Vasconcelos, por sua vez, optou pela candidatura de Raul Henry, ex-vice-prefeito de Roberto Magalhães em 1996, mas jamais testado como majoritário nas urnas, embora em 2006 tivesse saído delas com excelente votação, no Recife, para deputado federal. E havia o ex-peemedebista Carlos Eduardo Cadoca, que tentava, novamente, chegar à prefeitura, dessa vez pelo pequenino PSC, após ter rompido com Jarbas Vasconcelos e toda a aliança da qual fazia parte.
O nome de João da Costa – praticamente imposto pelo prefeito João Paulo, que do alto da sua impressionante popularidade confrontou até mesmo o presidente Lula, defensor da candidatura do ex-ministro Humberto Costa – também era desconhecido da maioria do eleitorado. Embora o candidato petista surgisse, nas primeiras pesquisas, em uma tímida terceira colocação, atrás de Mendonça e Cadoca, João Paulo assegurava que o levaria à vitória.
De fato, o que se viu foi a consolidação da chamada “tese do andor”, segundo a qual um figurão da política carrega, nos ombros, outro político menos conhecido. Com pouco mais de um mês de campanha, e apenas alguns dias após a estreia do programa eleitoral na TV e rádio, o petista já ultrapassara a todos, deixando Mendonça em segundo – embora em uma diferença mínima, que representava empate técnico – e Cadoca em terceiro. Apesar de desfilar nas ruas ao lado do “padrinho” Jarbas Vasconcelos, Raul Henry se mantinha na quarta colocação.
A campanha de 2008, no Recife, também se diferenciou das demais por não ter contado com nenhum fato contundente. O momento mais tenso aconteceu quando militantes de João da Costa foram acusados de usar a estrutura da Secretaria de Educação, da Prefeitura, para fazer campanha, o que levou os demais concorrentes a se unirem para denunciá-lo à Justiça Eleitoral. O petista teve a candidatura cassada, mas, com um recurso à instância superior, pode se manter na disputa, ainda que sub judice.
Os esforços dos adversários pareciam não estar à altura do poder do maior cabo eleitoral do candidato situacionista. Com o slogan “João é João”, o prefeito João Paulo levou seu “afilhado” a patamares elevados nas pesquisas da reta final, como a do Vox Populi, publicada pelo Jornal do Commercio, na qual João da Costa cravou 50% das preferências, contra 37% da soma de todos os adversários (JC – 06/09/2008, p. 5). A se confirmarem aqueles índices, a disputa seria encerrada no primeiro turno.
O favoritismo do prefeiturável petista era tamanho que surpreendeu os opositores, derrubando, uma a uma, todas as estratégias traçadas para lhe dar combate. E, de fato, um mês após ter registrado os índices mais altos nas pesquisas, João da Costa garantia a vitória nas urnas, dando ao PT mais quatro anos no comando da capital.
O petista saiu das urnas com 432.707 votos (51,5% da votação total). Mendonça Filho confirmou a segunda colocação, com 206.826 votos (24,6%) e Raul Henry, em uma arrancada, chegou em terceiro, com 137.728 votos (16,4%). A surpresa ficou por parte de Cadoca, que não conseguiu mais que 30.929 votos (3,6%), quase empatado com Edilson Silva, do PSOL, que teve 25.568 votos (3,0%). A vitória de João da Costa – considerada muito mais uma vitória de João Paulo – também quebrou dois tabus na capital pernambucana. Primeiro, o de que o prefeito nunca conseguiria eleger o sucessor do mesmo partido. E o segundo, que um candidato a prefeito do Recife, apoiado pelo governador do Estado, estaria sempre fadado ao insucesso.

4.5.1 Juntando os cacos

O resultado das urnas proporcionou, ainda, um tema de reflexão para as oposições, que saíram divididas naquela disputa: diante do avanço cada vez mais consolidado do PT no Estado, não seria o momento de reeditar a aliança PMDB-DEM para o pleito de 2010? A questão foi levantada horas depois da proclamação do resultado da eleição, pelo próprio Jarbas Vasconcelos, que apontou Mendonça Filho e Raul Henry como os novos líderes da oposição em Pernambuco e se disse disposto a procurá-los para conversar a respeito do assunto. (JC – 06/10/2008, p. 8).
Alguns dias depois, o senador peemedebista daria uma entrevista ao Jornal do Commercio, explicando melhor suas conclusões:
A oposição sai na vantagem (em 2010), com dois nomes cotados como favoritos para a Presidência da República, José Serra e Aécio Neves (ambos do PSDB). É possível aproveitar esse mote para reunir PMDB, DEM, PSDB e até o PPS e o PV para conversar e avaliar se podemos ter um projeto em comum, tanto presidencial como no Estado, incluindo o governo e o Senado. (JC – 12/10/2008, p. 3)
Em coro com Jarbas Vasconcelos, o ex-ministro Gustavo Krause, um dos caciques do DEM, advertiu, em entrevista à imprensa, sobre a necessidade de articular forças contra o avanço do bloco PSB/PT no Estado: “Ou se tem uma oposição competente e permanente ou se confirma a tese do mandato de oito anos com um plebiscito no meio, que é promovida pelo dispositivo da reeleição”, vaticinou. (JC – 12/10/2008, p. 3)

4.5 Jarbistas recebem o “troco” por 98

Mesmo após o desastre das eleições municipais de 2008, as oposições no Estado não conseguiram se articular. O líder maior, Jarbas Vasconcelos, optou por permanecer mais tempo no Senado, tratando da oposição ao presidente Lula, embora mandasse vários recados aos aliados, em Pernambuco, de que precisavam se reunir para fazer frente ao forte palanque da Frente Popular, que seria comandado pelo governador Eduardo Campos, candidato à reeleição em 2010.
Não adiantaram as advertências feitas pelo senador. O período pré-eleitoral pegou os oposicionistas desprevenidos, sem um nome consolidado para a disputa. A solução foi apelar ao próprio Jarbas para que avaliasse a possibilidade de se candidatar, pela quarta vez, ao governo do Estado. Para surpresa geral, o peemedebista sinalizou positivamente, mas colocou condições. Entre elas, queria reeditar a chapa vitoriosa de 2002, com Marco Maciel e Sérgio Guerra – cujos mandatos estavam terminando em 2010 – novamente na briga pelo Senado.
A outra condição era mais complicada. Jarbas exigia fidelidade por parte das bases dos principais partidos da aliança. As direções estaduais do PMDB e do DEM passaram a ameaçar com punição, e até expulsão, os prefeitos e vereadores dissidentes que, no interior, se preparavam para subir no palanque de Eduardo Campos. O maior problema residia no PSDB. Sem intenção de disputar novamente o Senado – ciente de que não reuniria forças para vencer a máquina governista – o presidente nacional tucano, Sérgio Guerra, já decidira ser candidato a deputado federal, cargo que conquistaria com tranquilidade. E mais: havia liberado os prefeitos e lideranças do PSDB para apoiarem a reeleição do governador. Mesmo irritado e ciente das condições amplamente desfavoráveis, Jarbas anunciou, no dia 6 de maio, que entraria na briga, tendo como companheiros de chapa, para o Senado, o pefelista Marco Maciel e Raul Jungmann, do PPS. Para a vice, foi escolhida a deputada estadual Miriam Lacerda, também do PFL.
Do lado da Frente Popular, embora as pesquisas o apontassem como favorito absoluto, Eduardo não pilotava em céu de brigadeiro. O socialista enfrentava pressões de partidos como o PT que, além de indicar um dos candidatos ao Senado, também exigiam a desistência do vice-governador João Lyra Neto (PDT) de se recandidatar, para que pudessem ocupar seu posto. Preocupado em não ter o comando abalado, o governador bateu o pé e assegurou a reedição da chapa com o pedetista. Também garantiu ao PTB uma das vagas de senador, na chapa, para o deputado federal Armando Monteiro Neto, presidente da poderosa Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Faltava preencher a vaga que caberia ao PT na chapa majoritária. Eduardo Campos assistiu, de camarote, à briga entre os petistas João Paulo e Humberto Costa pelo espaço, sem declarar sua preferência. Ao final de um processo quase autofágico, e com o partido absolutamente em frangalhos, o nome indicado foi o de Humberto.
A eleição que repetiria o embate histórico entre jarbistas e arraesistas começou mal para as oposições. Pesquisas realizadas em julho já apontavam uma vantagem quilométrica para o governador-candidato, dando sua vitória como certa já no primeiro turno. Eduardo Campos ainda recebeu um importante reforço do presidente Lula, que veio ao Estado em três ocasiões, para reforçar a campanha da presidenciável petista, Dilma Rousseff, e a do seu ex-ministro da Ciência e Tecnologia. Em uma das suas passagens pelo Recife, Lula discursou em sua cidade natal, Caetés, no Agreste, tecendo duras críticas a Jarbas Vasconcelos e seus aliados, que fustigavam o governador e a ele próprio, denunciando a paralisação de obras importantes. O Jornal do Commercio registrou a reação do presidente:
Tenho pena das pessoas que, mesmo tendo os olhos bons, insistem em não enxergar. Esses adversários de Eduardo já governaram, e deveriam saber o que está acontecendo no País. Em vez de ficarem no Recife, só falando mal, eles deveriam pegar um carro e ir visitar as obras. Iriam ficar morrendo de inveja porque não tiveram coragem de fazer o que estamos fazendo. (JC – 24/07/2010, p. 3)
A campanha transcorreu com ataques da União por Pernambuco, que foram ficando sem resposta por parte de Eduardo Campos. Entre as críticas mais duras, Jarbas Vasconcelos acusava o governador de cooptar prefeitos e lideranças dos partidos de oposição, aproveitando-se da situação de calamidade provocada, em diversos municípios da Mata Sul e Agreste do Estado, pelas chuvas, que destruíram cidades inteiras e deixaram milhares de pessoas desabrigadas. Em Canhotinho (Agreste), durante um comício, o senador peemedebista abriu as baterias contra o adversário, conforme registro do Jornal do Commercio:
O governo discrimina e persegue. Manda buscar correligionários em troca de obras. Isso tem acontecido sobretudo nos últimos dez dias (das chuvas). É a cooptação descambando para o que existe de pior na política, o toma lá dá cá. Chega e diz: ‘você deixa de dar o palanque para o candidato da oposição e nós vamos lhe dar obras’. É contraditório para quem se diz um super homem. (JC – 26/07/2010, p. 4)
Por mais que Jarbas Vasconcelos batesse, as pesquisas continuavam apontando a vitória de Eduardo Campos logo no primeiro turno. Os números eram cada vez mais altos, para desespero dos oposicionistas. Na noite de 23 de setembro – a menos de dez dias da eleição – o Instituto Datafolha apontou 72% de intenções de voto para o governador, contra 15% do seu adversário. Para completar o clima de desespero na União por Pernambuco, Humberto Costa, que já liderava a briga pelo Senado, ampliou sua vantagem, e Armando Monteiro ultrapassou Marco Maciel. (JC – 24/09/2010, p. 3)
Uma semana antes da votação, Jarbas Vasconcelos concedeu uma entrevista na qual praticamente já reconhecia a derrota. O senador disse não estar arrependido de ter entrado na campanha, que classificou como “a mais dura da sua vida pública”, e assegurou que não faria nada diferente, embora tenha aproveitado para fazer uma dura autocrítica à sua própria aliança:
Eu tinha que disputar esta eleição. A oposição estava enfraquecida, não cumpriu seu papel. Não eximo ninguém da responsabilidade, inclusive eu. O PMDB, PSDB, DEM e PPS não percorreram o Estado, não fizeram oposição organizada nas tribunas parlamentares. A oposição em Pernambuco está purgando, pagando um preço pelo pecado que ela cometeu. (JC – 26/09/2010, p. 5)
Os resultados das pesquisas se mantiveram no mesmo patamar até o dia 3 de outubro, quando as urnas confirmaram o que praticamente todos os eleitores já sabiam: Eduardo Campos estava reeleito, e com nada menos que 82,8% dos votos do Estado. Foi o governador, proporcionalmente, mais bem votado do País, com 3.450.874 votos, contra 585.724 obtidos por Jarbas Vasconcelos. O socialista ainda conseguiu o feito inédito de vencer em todos os 184 municípios pernambucanos, sendo que, em alguns, ele chegou quase à unanimidade, a exemplo de Granito, no Sertão do Araripe, onde contabilizou 99,01% dos votos válidos.
Doze anos após a histórica vitória de Jarbas sobre seu avô, Miguel Arraes (falecido em 2005), com uma margem de 1,06 milhão de votos de vantagem, Eduardo agora revidava com uma esmagadora votação sobre o peemedebista. Entre os dois, foram 2,8 milhões de votos de diferença. Ao receber a imprensa para a primeira entrevista após a reeleição, Eduardo Campos avaliou a vitória como o êxito de uma jornada que começou em 2000, quando foi quebrada, pela primeira vez, a hegemonia da aliança PMDB-PFL, com a vitória de João Paulo, no Recife, e prosseguiu nos pleitos de 2004, 2006 e 2008. “Os pernambucanos aprovaram nossa forma de governar. O povo valorizou uma outra forma de fazer política, sem brigas. Venceu quem tem mais conteúdo”, disse. (JC – 04/10/2010, p. 5)
Ao final da entrevista, Eduardo Campos se emocionou ao lembrar os ataques desferidos pelos jarbistas contra seu avô, Miguel Arraes, ao longo de vários anos de confronto. E, embora descartasse o clima de revanche, deixou aflorar um sentimento de mágoa que garantia já ter superado:
Soubemos ganhar. Tivemos maturidade. Pensavam que a gente iria alimentar a velha política. Fomos duramente atacados por oito anos. Mas crescemos com o coração largo. Aprendi a respeitar. Perdôo todos os ataques e agressões que recebi na vida pública. (JC – 04/10/2010, p. 5)



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após sofrer o quarto golpe consecutivo, nas urnas de 2010, ficou evidenciado, de uma vez por todas, o desgaste eleitoral experimentado pela aliança PMDB-PFL, liderada por Jarbas Vasconcelos. A sucessão de erros cometidos ao longo das três derrotas anteriores – 2004, 2006 e 2008 – tornava fácil prever aquele quarto fracasso. Foram vários equívocos, na maioria, provocados por dificuldades de diálogo e rivalidades pessoais alimentadas dentro do próprio bloco oposicionista.
Em 2004, quando Carlos Eduardo Cadoca venceu a disputa interna, no PMDB, contra Raul Henry, pela candidatura a prefeito do Recife, Jarbas foi acusado de não se empenhar na campanha, o que teria contribuído significativamente para a reeleição do prefeito João Paulo (PT), logo no primeiro turno e, pouco depois, provocado a saída de Cadoca do PMDB. Mas a queda de braço mais evidente, na aliança, aconteceu em 2006, entre Mendonça Filho (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB), pela indicação como candidato à sucessão do próprio Jarbas no governo. Aquele confronto interno, do qual Mendonça saiu vitorioso, estabeleceu um clima de tensão entre democratas e tucanos que jamais foi desfeito.
Para completar a série de erros estratégicos, um equívoco coletivo marcou a disputa municipal de 2008. Sem condições de alinhavar uma candidatura única de oposição ao prefeito João Paulo, Jarbas Vasconcelos decidiu apoiar Raul Henry, em uma aliança com o PSDB, partido com o qual o DEM vinha se indispondo há dois anos. De repente, os democratas se viram obrigados a sustentar, sozinhos, a candidatura de Mendonça Filho à PCR. Houve, ainda, o agravante de o eleitor não ter compreendido bem a implosão da aliança, questionando a ausência de Jarbas no palanque do seu outrora vice-governador.
De toda forma, ao se analisar as articulações, o desempenho e os ganhos e perdas da aliança – ora apenas entre PMDB e PFL (DEM), ora com a participação do PSDB e do PPS – é possível chegar a duas conclusões que se complementam: a primeira de que, se havia, no acordo firmado no início dos anos 90, um argumento desenvolvimentista como lastro, este passou ao largo dos reais objetivos executados pelos aliados ao longo de quase duas décadas.
A segunda conclusão que se pode tirar, a partir da análise da trajetória político-eleitoral da aliança, é que ela foi talhada pelos seus artífices – entre líderes políticos e marqueteiros – tendo como molde a figura pessoal e política de Jarbas Vasconcelos. E, se em 1996 essa “roupa” serviu em Roberto Magalhães, garantindo a sua eleição à Prefeitura do Recife, é porque Jarbas ainda não a vestira. A partir do momento em que o fez – na disputa pelo governo do Estado, em 1998 – somente ele passou a ser bem-sucedido nos embates que se seguiram: em 2002, quando foi reconduzido ao governo, e em 2006, elegendo-se senador da República.
Faltou, de fato, aos comandantes da aliança uma leitura mais atenta dos resultados das urnas. A vitória de João Paulo, no Recife, em 2000, já deveria, até pelo cenário adverso em que ocorreu, ter sido analisada com mais profundidade, em busca das causas reais que a motivaram. A reprise da derrota, em 2004 – novamente imposta por João Paulo à aliança, agora sobre Cadoca – só veio a corroborar a tese de que a unidade, costurada, ao menos publicamente, com tanto afinco, não estaria funcionando de acordo com o planejado.
Mas foi a derrota de Mendonça Filho, na briga pela sucessão de Jarbas Vasconcelos, em 2006, que tornou evidente, até para observadores menos atentos, que a fórmula da aliança falhara e carecia de uma imediata revisão. Todavia, em vez de proceder a essa reciclagem, as lideranças espalharam-se por palanques distintos na disputa municipal de 2008, contribuindo para confundir boa parte do eleitorado, que já se acostumara a vê-los unidos, embora quase sempre em torno de Jarbas.
É fato que, depois da eleição de 2008, não houve mais condições de fazer uma oposição consistente ao governador Eduardo Campos, no Estado. Entre outras razões, porque o próprio governador, embora adversário, se apoderou de vários projetos iniciados na gestão de Jarbas Vasconcelos – que o antecedeu – e os transformou em realidade.
Esse fato, inclusive, pode ser listado como mais um forte argumento a reforçar a tese de que a finalidade primordial da aliança jarbista era garantir a questão eleitoral, e não o desenvolvimento do Estado. Até porque, se o fosse, não seria o caso de ter priorizado a consolidação de tais projetos, inclusive como estratégia para garantir o aval do eleitor pernambucano no pleito seguinte?
Pelo contrário. Ficou cada vez mais difícil dar combate às gestões de Eduardo Campos, no governo do Estado, e do petista João da Costa, no Recife. Ao ponto de levar Jarbas Vasconcelos a queixar-se publicamente dos seus aliados. Embora, mais adiante, derrotado nas urnas de 2010 pelo socialista, o próprio senador viesse a avocar, para si, parte da responsabilidade pelo fracasso.
A derrota de Jarbas Vasconcelos, diante do seu principal adversário político, deixou a aliança em frangalhos e sem possibilidade de costura. É improvável que o palanque volte a se reunir no mesmo formato que existiu ao longo de quase duas décadas. Seus ideólogos já reconheceram tal dificuldade, apontando a lacuna deixada no cenário político com a falência da aliança e alertando para a necessidade de se construir uma nova alternativa, que faça frente ao bloco hoje liderado pelo governador Eduardo Campos.



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